quinta-feira, 31 de março de 2016

As 5 coisas de que eu mais gosto em Macau


Cristiana Figueiredo está em Macau há cerca de 15 anos, onde é empresária, gerindo vários espaços comerciais.
1.
Ver português em todas as ruas

Aqui tão longe, nesta terra que sempre me pareceu quase imaginária antes de ser casa, o encanto de dobrar uma esquina e ver a nossa língua não desaparece com o tempo. Das placas de azulejo com o nome das ruas às traduções surreais das frontarias dos pequenos negócios que não se lêem sem um sorriso, o português imiscui-se sorrateiramente na vivência quotidiana da cidade.
2.
iam chá
Uma mesa de iam chá, uma especialidade do Sul da China que se come tradicionalmente durante a manhã e almoço, é um festival de cor, formas e sabores. Composto por uma multitude de pratos com pequenas iguarias, cozidas no vapor ou fritas, salgadas e também doces, o iam chá é uma refeição social e de partilha.
3.
A mudança e o ritmo

Em Macau a mudança é dramática. Sai-se e quando se regressa há um edifício novo a colorir o perfil da cidade. Fecha o sapateiro onde se ia há anos para nunca mais se encontrar. Macau é frenética de dia, transborda de luz de noite, a agitação é permanente.
4.
A velha Macau
Em recantos que parecem portais para o passado, sente-se ainda a Macau de antigamente, plácida e pacata, reflectida em encantadores edifícios coloniais, em igrejas amarelas rendilhadas a branco, em templos onde o incenso fragrante queima lentamente e raios de sol cortam o fumo que dança.
5.
A multiculturalidade

Num território com cerca de 30km2 e um dos mais densamente povoados do mundo, misturam-se as nacionalidades e culturas. Os amigos distribuem-se por mais nacionalidades que os dedos das mãos conseguem contar e as crianças são pelo menos trilingues (o mandarim aprende-se na escola). O impenetrável cantonês é um desafio que torna mais interessantes os dias.
Fonte: Fugas

sexta-feira, 25 de março de 2016

Viajantes: confiar é preciso, até certo ponto


O que é essencial numa viagem? A confiança: em nós, sempre, e nos outros, com cautelas, dizem os viajantes com quem a Fugas conversou.
Cristina Fernández: Passeio pelo mundo
Brinca dizendo que nasceu a viajar, Cristina Fernández, sevilhana nascida em Londres. Viajou sempre e encontrou o seu trabalho de sonho quando se tornou jornalista do programa televisivo Andaluces por el mundo, o pioneiro destafranchise em Espanha. Quando este terminou, continuou a trabalhar em televisão e a viajar sempre que o trabalho permite (e a escrever no seu blogue de viagens). Com o namorado, em grupo, cada vez mais sozinha, sobretudo nas viagens mais longas. “Tenho o meu ritmo, posso fazer o que quero a cada momento, sem depender de ninguém. E falo muito mais com os locais.” Mesmo que não falem a mesma língua, como aconteceu numa viagem de camioneta na Tailândia, onde passou oito horas a “conversar” com a senhora ao seu lado. “Ela até partilhou a comida que trazia”, recorda. Em Marraquexe, o facto de ir cumprimentando quem passava, salamu aleikum, não só a livrou de muito assédio como lhe valeu convites para pequenos-almoços, chás. Não evitou, porém, que em Marraquexe, tenha sido perseguida por um homem “con muy mala pinta”. “Esteve meia manhã atrás de mim e só me dizia coisas em árabe, que eu não entendia. Acabei por entrar num museu e vi que ficou à porta. Falei com os funcionários do museu que saíram e lhe disseram algo. Quando saí já não estava.”
Com 33 anos, Cristina não tem dúvidas: viajar é o que mais gosta de fazer. E às vezes confia demasiado nela própria, o que a deixou — e ao namorado e a outro casal — em situação perigosa numa viagem pelo Botswana e Namíbia, quando decidiram fazer um safari livre. Num dos parques nacionais do Botswana, onde se pode ficar o tempo que quiser, um dos mapas que levavam não assinalava um rio, por onde passaram ao anoitecer, hora de banho dos elefantes. Encontraram várias manadas e um deles, com crias, decidiu protegê-las. Aproximou-se do jipe e ficou a cerca de 10 metros — eles lá dentro durante 30 minutos, imóveis, à espera que ele se lançasse contra a viatura. Acabou por afastar-se e eles seguiram. “Tínhamos lido guias, vimos como se deveria reagir perante animais selvagens, mas nada nos preparou para aquilo. Fomos muito inconscientes”, assume. À distância, contudo, diz que viveu uma “verdadeira aventura”. Nessa mesma viagem, desta vez em Windhoek (capital da Namíbia), outra aventura, menos selvagem. Foi levantar dinheiro a um multibanco, sozinha, e foi abordada por um rapaz que a queria ajudar, dizendo como colocar o cartão, “de outra forma não funcionaria”. “Eu estava a confiar, mas depois reparei que três mulheres haviam parado a observar e faziam não com a cabeça.”
Ou seja, há que “confiar até certo ponto”, conclui, e é o que faz nas suas viagens, que são como um “passeio pelo mundo”. Em Chiapas (México), pleno território zapatista, estava a chegar a San Cristóbal de las Casas, por uma estrada péssima e noite cerrada. Passaram três carros no sentido contrário e todos fizeram sinais de luzes, ela sem saber porquê. Até que vê um homem deitado no meio da estrada. “Tive que travar a fundo”, recorda, “e ficámos [ia com o namorado] sem saber: será que se passou algo ou é uma armadilha?” Tomada pelo nervosismo, começou a chorar, mas decidiram seguir a viagem. Mais tarde veio a saber que aquele cenário era comum — “apenas” homens bêbados. A mesma decisão tomaram em Ilhéus (Salvador da Bahia), quando passaram de carro por dois homens atacando-se na beira da estrada com “umas espécies de foices”. “Não sabia como iam acabar, mas não podíamos arriscar”.
Quando prepara uma viagem, Cristina informa-se muito, vê o que pode fazer, visitar, coisas diferentes, não só o típico. Marca apenas a primeira noite de hotel: “Tenho ideia do que vou fazer, mas nada marcado.” Gosta de perguntar aos locais e às vezes segue os conselhos. Já teve boas e má surpresas. No México, a experiência foi frustrante, na Birmânia, por exemplo, “todo un acierto”. E um risco, porque não só seguiram indicações como foram de mota com os homens que se ofereceram para ser os seus condutores durante a sua estadia. “No início pensámos que nos queriam enganar, acabámos por aceitar quando nos prometeram levar a sítios fora das rotas turísticas”, conta. Estavam num país desconhecido, com uma língua desconhecida e homens desconhecidos. “Descobrimos templos abandonados impressionantes, onde não havia um turista. Percorremos caminhos rurais e parámos em aldeias completamente isoladas. Foi uma experiência inolvidável”, recorda, “tanto que todos os dias em que estivemos em Mandalay contámos com eles”. Ainda na Birmânia percebeu como as pessoas se alegram por estrangeiros se interessarem pelo seu país. “Fui comprar uma garrafa de água. Conversa puxa conversa, deram-me fruta, uma pulseira e convidaram-me para jantar.”
Custa-lhe lembrar-se de más experiências — “acho que tenho tendência a esquecer” — mas recorda-se de no Uruguai ter de pagar 60 euros à polícia para não serem multados. “Ficámos horas paradas numa estrada, eles a dizerem que chamariam um juiz. Mas nunca mais chegava ninguém. Acabámos por pagar.” E em Ho Chi Minh (Vietname) foi ao contrário: perante a ameaça de chamar a polícia, um taxista que tentou cobrar-lhes mais do dobro do que sabiam, por experiência, ser o valor da viagem, acabou por desistir. Recentemente, na Tailândia, tinha marcado uma viagem de barco para umas ilhas mais pequenas a partir de Ko Chang. Quando a hora chegou, estava muito mau tempo. “Pensei que o barco não saía.” Saiu e pouco tempo depois estava tudo a vomitar. Ela via os olhares da tripulação e sabia que a situação não era boa. Chegou a olhar em volta a ver se via uma ilha mais próxima para atirar-se à água. “Lo pasé fatal, muy mal”, confessa. Chegou ao destino final e soube que todas as travessias tinham sido canceladas — a dela “furou” o cancelamento. “Já via os cabeçalhos dos jornais: ‘50 chineses e duas espanholas mortas num naufrágio na Tailândia’”, brinca agora.
E agora também confia, sem dúvida, mais nos outros. “Ouvimos desde pequenos que temos de estar alerta, não confiar, não falar com estranhos. Mas vamos aprendendo que há mais pessoas boas que más. Com sorte cruzas-te com as boas.”

Mariana Oliveira e André Gomes: “Confiar: nos outros e em nós”
Às vezes a simpatia tem segundas intenções. Mariana Oliveira e André Gomes preferiram jogar pelo seguro e não esperaram para ver. Aconteceu em Hoi An, no Vietname, quando pararam as bicicletas para consultar o mapa. Queriam chegar à praia. Pára uma mota e uma rapariga vem ter com eles — o condutor segue e estaciona mais à frente. Acenderam-se os sinais de alerta: “Algo se passa!” A rapariga tenta ajudá-los. Sigam pela direita, indicou. “Agradecemos e fomos pela esquerda”, contam Mariana e André por email, a partir da Nova Zelândia, onde estavam desde Dezembro (agora já estão na Austrália). “E não é que tínhamos razão?” Contudo, o encontro não ficou por aí. Duas horas de pedaladas depois, eis que avistam agora apenas o rapaz na mota e mais à frente outro rapaz, também de mota. Ambos falavam ao telemóvel. “Olhámos um para o outro, invertemos a marcha e voltámos para ohostel.”
A professora de Filosofia de 36 anos e o representante de vendas de 35 estão a meio da grande aventura a que se propuseram (Indonésia, Tailândia, Laos, Vietname e Camboja já ficaram para trás). “Decidimos que seria bom para a nossa sanidade mental fazer uma pausa de um ano”, explicam. Queriam conhecer novas culturas, aprender com realidades diferentes e mudar a tónica dos bens materiais para os bens humanos. E uma coisa já sabiam: tinham de respeitar os locais. “Nós é que estamos ali a mais, aquele espaço é deles. Nós é que somos os diferentes. Também seguimos a máxima popular ‘Em terra onde fores, faz como vires fazer’.” Isso ajudou-os numa viagem num comboio nocturno, também no Vietname. Ao chegarem aos seus lugares, encontraram um compartimento com cerca de dois metros quadrados e seis camas. Estavam já lá cinco pessoas: um homem trazia o filho, de seis anos, que estava numa das camas destinadas ao casal. As contas foram rápidas: “Seis camas, cinco vietnamitas, dois portugueses. Alguém estava a mais”. Decidiram que eram eles e então instalaram-se no corredor (apertadíssimo), sem janelas que abrissem e com baratas (bastantes) a passear, para uma viagem de 12 horas. Uma vez aí, uma das revisoras, primeiro desconfiada e com cara de poucos amigos, percebeu que os “estranhos” tinham cedido a cama a uma criança — duas horas depois tinham dois lugares sentados, limpos e com janela que abria.
Quando começaram a preparação da viagem, Mariana e André tiveram muitas dúvidas e uma certeza absoluta: iam à Nova Zelândia e iam aproveitar o visto de três meses. Antecipavam o que encontraram, uma “lufada de ar fresco, quer pelas paisagens, autênticas obras de arte, quer pela cultura que se vive”. “É incrível a forma como as pessoas respeitam a natureza e os animais”, contam. E aprenderam “que é possível confiar”, num país em que as pessoas têm a prática de deixarem as casas e os animais de estimação ao cuidado de desconhecidos. Mariana e André têm sido esses desconhecidos, através da rede de house-sitting. Na primeira vez, várias dúvidas pairavam sobre eles: será que as informações (condições e localização das casas, por exemplo) da plataforma online onde estão inscritos estavam correctas? A verdade é que a realidade superou as expectativas e na Austrália também são house-sitters.
No entanto, a Nova Zelândia não foi livre de sustos. Excessos de confiança: após uma caminhada de uma hora, chegados a uma “bela praia”, cheia de turistas, não hesitaram em dar um mergulho. A roupa e a máquina ficaram em cima de uma rocha e de repente viram duas raparigas aproximarem-se para tirar fotografias. “Numa paisagem tão bonita não se escolhe uma rocha cheia de tralhas, a não ser que haja lá algo de interessante”, pensaram, por isso, voltaram à rocha.
Alguma confiança, com bom resultado, sentiram no voo entre Banguecoque e Bali. Emprestaram 50 dólares ao casal chinês que seguia ao lado deles e que havia pedido comida: no avião só aceitavam bahts ou dólares e eles só levavam rupias indonésias. “Ficaram maravilhados! Quando o avião aterrou, ajudaram-nos na burocracia para a entrada no país, devolveram-nos o dinheiro e deixaram-nos os contactos para irmos jantar a casa deles em Banguecoque ou Taiwan.”
Poucos meses na estrada já lhes permitiram perceber alguns truques com que se tenta enganar incautos, como quando apanharam um táxi, noite instalada, em Nha Trang. O taxista pega na nota que lhe deram, coloca-a na carteira e retira outra, furada, dizendo que é falsa. “Dissemos que íamos chamar a polícia e de repente a nota deixou de ser falsa e recebemos o nosso troco.” Também por isso esta viagem tem contribuído, “e muito”, para a auto-confiança deles. “Deixámos de recear o desconhecido. Sabemos que ainda falta um longo caminho, mas temos confiado em nós e nos outros e a resposta tem sido francamente positiva. Portanto, vamos continuar com a nossa táctica: confiar, nos outros e em nós.”

André Parente: A importância do instinto
“A primeira vez que cheguei à Indonésia tive um impulso para ir embora logo no dia seguinte. Muita confusão, idioma muito diferente, pessoas aparentemente a tentar enganar-me, trânsito caótico, motas por cima dos passeios, ruas sujas com oferendas... Respirei fundo, mudei-me para um hotel melhor e fiquei alguns dias só a observar, sem fazer praticamente nada além de dormir, comer e observar. Depois habituei-me e hoje em dia a Indonésia é dos meus destinos preferidos.” André Parente, 42 anos, não esquece o choque cultural na Ásia, que durante os próximos meses é a sua casa. Quando falámos com ele estava na Tailândia, onde ia ficar um mês — hoje parte para o Camboja. Ou amanhã ou depois de amanhã. Tem medo de andar de avião e por isso sempre que pode utiliza transportes terrestres, não está tão preso a datas. “Sei que é irracional [o medo] porque também sei que é seguríssimo [o avião]. É mais perigoso o que fiz há pouco, ir à praia de mota, descalço e sem capacete. Ou andar de autocarro na Índia ou no Peru.” Por isso, André também não deixa nada ao acaso: anda com umas chapas, “tipo dos soldados norte-americanos”, ou uma pulseira com placa, com os seus dados — identificação, número de passaporte, apólice de seguro, número de emergência, tipo de sangue — e no bolso leva o cartão de uma clínica internacional local. “Se me acontecer algo, quem me encontrar saberá o que fazer. A maioria das pessoas pensará que sou alarmista, mas as histórias aqui...”
Estes são truques que André foi aprendendo com as viagens — e não são os únicos — que partilha num grupo do Facebook (Viajantes Independentes), onde procura dar informação e confiança a viajantes independentes. Aprendeu, por exemplo, que não há problema em chegar a um sítio às 3h da manhã — “pedes um táxi para o melhor hotel da cidade, o preço vai ser demasiado caro, mas se pedires para ficar no lobby até amanhecer não recusam” — e que quando se sai de um autocarro e comboio o melhor é ficar para trás enquanto os taxistas vêm em busca de passageiros — “esses são os que podem tentar enganar-te”. Mas isto só com a experiência se aprende e ele já foi muitas vezes enganado em táxis.
Afinal, são muitas as viagens que os seus passaportes testemunharam. Sozinho, viajou pela primeira vez para a Austrália e Nova Zelândia, em 2007 empreendeu a grande aventura, um ano pelo mundo. Nos últimos anos tem dividido o seu tempo entre um ano em casa e meio ano a viajar — conseguiu conciliar o trabalho com as viagens, já que o faz online (marketing ewebdesign). Se há algo em que tem de ter absoluta confiança é nas ligações à Internet: consulta fóruns online para avaliar e de cada vez que chega a um alojamento verifica tudo antes de instalar-se. Agora no Camboja, vai para uma ilha e não tem a certeza de como será a Internet, mas está preparado: “Posso ficar uns dias sem trabalhar, mas tem de ser por determinação minha.”
Não é apologista do “vamos embora e logo se vê”. “É demasiado arriscado”, considera, “e eu gosto de planear”. “Sempre fui uma pessoa bastante confiante. Penso muito sobre os assuntos, pondero, crio planos b e backupsde emergência para tudo. Mas na hora de decidir e implementar, não penso muito nisso... Confio no instinto e faço!” Porque, por mais planeamento que faça, já lhe passou de tudo, já foi assaltado, já perdeu aviões e comboios, já ficou sem hotel.
Nas vezes em que não confiou no instinto, nem sempre as coisas lhe correram bem. Como há dois anos, numa guest house na Nicarágua. O preço era óptimo, mas sentiu algo estranho, que depois associou a uma troca de olhares da recepcionista. “Decidi ficar e fui assaltado. Não são coisas esotéricas mas deveria ter ouvido [o instinto].” Por outro lado, quando recebeu o convite para ficar numa casa na Nova Zelândia também ficou alerta, porém decidiu aceitar. “Tive uma experiência rara, de passar uns dias com uma tribo maori.”
Com tanto planeamento, o ponto fraco de André é quando viaja acompanhado. Baixa um pouco a guarda e isso já o colocou em situações complicadas. Na Costa Rica assaltaram-lhe o carro. “Fui desleixado, deixei as coisas lá”, confessa. Roubaram-lhe tudo. Sem dinheiro, a 500 quilómetros da capital, foi ajudado: num hotel deixaram-no dormir — “se tiver dinheiro depois paga, se não, não” —, um casal alemão, aí no hotel, ofereceu dinheiro — ele recusou, mas ainda assim surgiu-lhe um envelope debaixo da porta. Conseguiu chegar a São José e dois dias depois já tinha dinheiro, passaporte e continuou viagem. “Na altura foi dramático, hoje penso ‘ainda bem que aconteceu’. Percebi que nada é tão grave assim”, relativiza.
Apesar de tudo, assume-se como desconfiado em relação aos outros e acredita que em viagem é bom que olhem para ele e não tenham vontade de o roubar. “Quero parecer o mais pelintra”, brinca. Do que não abdica é da confiança em si. “Depois de tantas situações, sei que tudo se resolve e nada é tão problemático como pode parecer. Para além de situações de saúde ou acidente, tudo se resolve com relativa facilidade... e alguns dólares! Hoje em dia não tenho receio de ser ‘largado’ em qualquer sítio porque sei que se há lá gente é porque há transporte, sítio para dormir e comida.”
Anabela Valente e Jorge Valente: “Vamos com as pessoas”
A história começa no Luxemburgo, lugar central da diáspora portuguesa e local onde Anabela Valente e Jorge Valente se conheceram: ela chegada para trabalhar nas instituições europeias, ele nascido no grão-ducado. Tornaram-se companheiros de vida e das viagens que começaram a fazer de mota. Primeiro na Europa, até que há dois anos pediram uma licença sabática e partiram para seis meses na América do Sul, sempre de mota. “E com muita calma, para conhecer pessoas e passear”, explica Anabela, via Skype (na altura, Jorge estava na Ucrânia, em missão com a Cruz Vermelha). Foram “minimamente” preparados e com receio q.b.. “Problemas há sempre, sobretudo se viajas de mota. Cair, por exemplo: não há um ‘se’ caíres, há ‘quando’ e ‘quantas’ vezes. E isso dá azo a muitas aventuras.” Essas aventuras mudaram-lhes a vida: agora têm uma revista semestral (Diaries of: cada número, um país) e deixaram os empregos para viajar.
Curiosamente, a maior aventura que viveram nesse périplo sul-americano não teve relação com a mota — mas a ela iremos. Já no final da viagem, Anabela e Jorge são apanhados quase no epicentro de um terramoto de 8,8 na escala de Richter, seguido de alerta de tsunami. Estavam em Iquique (Chile), numa estalagem em frente ao mar, eram quase 21h, e preparavam-se para dormir. A terra começou a tremer e eles saem para a rua, descalços, quase sem roupas, correndo quilómetros, seguindo os sinais de evacuação em caso de tsunami. A noite foi passada entre famílias chilenas, que lhes providenciaram roupa e comida. No dia seguinte, Anabela percebeu que tinha os pés cravejados de vidro e não quis voltar a dormir na estalagem, com medo que uma réplica a obrigasse novamente a correr. Uma família chilena abriu-lhes a sua casa, situada num ponto alto, e eles aceitaram sem hesitar. Em boa hora, porque houve novo sismo, desta vez de 7,7, mas não tiveram de fugir. “É incrível a generosidade das pessoas em situações limite”, reflecte Anabela, “nas horas difíceis em viagem temos sido sempre ajudados.”
E vamos à mota e aos imprevistos. “Nunca podemos marcar hotel, por exemplo, porque não sabemos até onde conseguimos chegar.” Uma vez, num anoitecer na Patagónia, acabaram a montar tenda no jardim de um morador de um local isolado, onde só havia um hotel muito caro e três ou quatro casas. “Pedimos e ele disse logo que sim.” Situação mais complicada foi vivida no Chaco, em território paraguaio. Sabiam que era uma zona muito desertificada e quiseram certificar-se que teriam lugares para abastecer a mota e as condições das estradas. “Diziam sempre que ‘es fea’ [em mau estado], mas que dava para fazer.” Seguiram viagem e a correia da mota partiu. Em menos de uma hora passou uma pick-up. Os dois homens ofereceram-se para levar a mota até à povoação mais próxima. “Eu estava bastante renitente”, assume Anabela. Contudo, eles lá os levaram até um “mecânico amigo”. “Pensei ‘ok, vai sair caro’. Mas não. Acabámos a almoçar com eles e o arranjo ficou-nos por menos de 10 euros.”
De um seguro de mota expirado dois dias antes, Anabela e Jorge encontraram uma das suas anedotas preferidas. Estavam perto da fronteira da Argentina e como nunca tinham sido controlados foram arriscando. Correu mal e Jorge teve de ir até à localidade mais próxima tratar dos papéis. Para lá arranjou boleia facilmente, para voltar teve mais dificuldade e demorou umas horas. Entretanto, Anabela tinha ficado sozinha, já que a brigada policial, tendo acabado o turno, abandonou o local. “Com tudo isto já estava aflita e quando vejo chegar uma carrinha de onde saem dois homens fiquei com medo.” Afinal era o Jorge, que viajou com um caixão.
Certamente que uma das anfitriãs de couchsurfing que os recebeu nesta viagem também terá uma anedota para contar. Era a sua iniciação na rede de acolhimento e eles perceberam que na primeira noite ela não largava o telemóvel. Uns dias depois, a confissão: eram mensagens de família e amigos a certificarem-se de que estava tudo bem, de que Anabela e Jorge não eram “uns psicopatas”.
Já encontraram polícias que os tentaram extorquir, taxistas que os tentaram enganar, mas Anabela e Jorge acreditam que a sua experiência lhes tem ensinado que as pessoas são, por natureza, “boas e generosas”. “Vimos darem tanto a estranhos que quando alguém tenta tirar imaginamos que estão numa situação difícil. Mesmo sabendo que nos estão a cobrar mais do que a um local, se achamos que é um preço correcto, não vale a pena chatearmo-nos.” Cada vez confiam mais em estranhos. E viajam por forma a conhecê-los. “Não levamos GPS, de preferência temos um mapa muito básico, porque assim temos pretexto para falar com as pessoas. Às vezes pedimos direcções e acabamos por não ir aos sítios. Vamos com as pessoas.” Vamos ver onde as pessoas os levam por Cabo Verde, onde andam por estes dias, e nos próximos anos, em que tencionam chegar à Ásia.
Fonte: Fugas

sexta-feira, 18 de março de 2016

Sim, a mais longa viagem em comboio do mundo começa em Portugal

Sempre sobre carris em comboios de passageiros são, seguidos, mais de 17 mil km e 13 dias até ao Vietname. Revimos a viagem e até conseguimos acrescentar mais umas horas e centenas de quilómetros...
De vez em quando, volta a ideia de realizar a "mais longa viagem em comboio do mundo", precisamente de Portugal ao Vietname. Há que ir saltitando entre comboios mas o certo é que é possível concretizar essa odisseia.
A viagem tem sido alvo de vários relatos e planos, tendo até sido realizada numa espécie competição entre viajantes, em 2011, sob o mote "Ultimate Train Challenge", de Lisboa a Ho Chi Minh (antiga Saigão), e depois repetida em anos seguintes. Já nos últimos dias, um post do Facebook com um mapa da viagem foi alvo de milhares de partilhas (Weird WorldGreen Savers). Um mapa que, aliás, se encontra originalmente num artigo de 2011 escrito por um blogger apaixonado pela geografia, The Basement Geographer, de Kyle Kusch, que tinha precisamente planeado a viagem igualmente ao detalhe.  
Neste blogue, a planificação da viagem é bastante completa e inclui informação útil sobre as mudanças de estações, os tempos de espera, o tipo de comboios e os preços. O post diz que se quisermos fazer uma viagem com um mínimo de interrupções, o percurso seria de Londres a Pequim, mas se o objectivo for mesmo “construir” a viagem de comboio mais comprida do mundo, esta seria do Porto a Ho Chi Minh.
Por que escolheu o blogger o Porto? Não é a cidade mais ocidental portuguesa servida por caminhos-de-ferro. Fosse esse o critério e teríamos Cascais. Desta vila a Ho Chi Minh demorar-se-á mais 1 hora e 39 minutos do que do Porto ao Vietname.
Mas se quisermos realmente conceber a viagem de comboio mais longa do mundo a partir da costa, então haverá que iniciá-la no extremo sudoeste de Portugal, na estação de Lagos. Daqui o trajecto sobre carris aumenta mais 551 quilómetros e, em vez das 327 horas calculadas pelo blogger, a viagem durará quase 334 horas.
Assim sendo, em vez da Invicta, de onde se iria apanhar o Sud Expresso a Coimbra para a fronteira francesa de Hendaya, o viajante deverá apanhar às 17h05 um regional de Lagos para Tunes e daí o Intercidades para LisboaOriente (chegada às 21h26) onde se instalará no Sud para chegar a França viaHendaya às 11h28 do dia seguinte.
Depois é “só” apanhar o TGV para Paris, mudar de estação, apanhar a ligação para Colónia, na Alemanha, e daí para Varsóvia. Da capital da Polónia para Moscovo a via mais rápida é por Minsk, na Bielorrússia, mas como os vistos (mesmo os de trânsito) para este país são difíceis de obter e é preciso pedi-los com muita antecedência, recomenda-se ao viajante que contorne esta antiga república soviética pela Lituânia e Letónia. Mas seguindo uma lógica de distância mais curta, o site prossegue a viagem pela via mais rápida (Varsóvia – Minsk – Moscovo).
Uma vez em Moscovo há que esperar 18 horas e 25 minutos (isto se todos os outros horários tiverem batido certo até aqui) até apanhar o mítico Transiberiano que levará o viajante durante seis dias até Pequim, onde, após mudar de estação, o entusiasta dos comboios apanhará a ligação para Hanói(Vietname) onde chegará 55 horas depois.
Depois disto o que são mais 33 horas sobre carris? Um simples passeio até concluir a viagem do Atlântico ao Pacífico quando o comboio proveniente de Hanói chegar a Ho Chi Minh
blogger do The Basement Geographer fez as contas ao custo da viagem com base nos sites dos caminhos-de-ferro dos vários países e chegou à conclusão que não ultrapassaria os dois mil dólares (1700 euros). A Fugas acrescenta-lhe mais 45 euros horas se a viagem tiver início no Algarve, portanto uns 1745 euros.
Eis, pois, uma aventura sobre carris que não é excessivamente cara. Por curiosidade, os países atravessados serão doze: Portugal, Espanha, França, Alemanha, Bélgica, Alemanha, Polónia, Bielorrússia, Rússia, Mongólia, China e Vietname. 
Mas, de facto, qual o trajecto de comboio mais longo? Aqui aparecem-nos outras respostas. Uma delas é o percurso que liga Madrid a Yiwu, uma cidade industrial no Leste da China. São 12.998 quilómetros percorridos em 21 dias (por mar seria seis semanas). Mas... trata-se de um comboio de mercadorias. Os vagões porta-contentores são os mesmos e têm eixos variáveis que se adaptam aos diversos tipos de bitola (distância entre carris) dos países por onde circulam. Já as locomotivas que rebocam este comboio são diferentes de país para país.
E em Portugal?
A viagem mais longa e sem transbordos que se pode fazer a partir de uma estação portuguesa demora 13 horas e 3 minutos. Trata-se do Sud Expresso, que liga Santa Apolónia a Hendaya, num percurso de 1075 quilómetros que atravessa Portugal e Espanha durante uma noite e uma manhã. Segue-se o Lusitânia Expresso, o comboio nocturno que liga Lisboa a Madrid e que demora 10 horas e 15 minutos.  
Mas no território nacional a viagem sobre carris mais longa, sem interrupções, é a Porto-Faro, na qual o Alfa Pendular percorre 668 quilómetros em 5 horas e 36 minutos. Se se considerar uma viagem com transbordos, os entusiastas do caminho-de-ferro podem fazer a versão caseira do passeio viajando de Valença do Minho a Vila Real de Santo António. A coisa faz-se em 11 horas e 40 minutos e basta apanhar quatro comboios: um regional deValença para Nine, o Alfa Pendular daí para Lisboa Oriente, seguindo-se o Intercidades para Faro. Por fim, um regional para Vila Real de Santo António. Sai-se do rio Minho às 11h17 e chega-se à foz do Guadiana às 22h57. Por 53,55 euros. 
Há ainda um outro percurso longo para quem quiser iniciar a viagem no Portugal profundo, na ponta mais distante da linha do Douro – o Pocinho. Daqui a Vila Real de Santo António demora-se 11 horas e 38 minutos e – pasme-se! – o trajecto faz-se apenas com três comboios: Pocinho – Porto, Porto – Faro e Faro – Vila Real. Por 57,90 euros. 
Guardamos para o fim a mais extrema das viagens de comboio em Portugal. É também entre o Pocinho e o Algarve, mas demora 17 horas e meia e é feita, grande parte, durante a noite. Preparado? 
Saída do Pocinho às 19h08 e chegada à Régua às 20h32. Partida às 20h50 para chegar a Caíde às 22h14. Depois um suburbano para o Porto onde se chega às 23h15. Quatro minutos depois da meia-noite, novamente outro suburbano, agora para Aveiro que deposita o passageiro na estação às 1h13. Aí há que esperar cinco horas pelo Alfa das 6h21 que vai directamente paraFaro, onde se apanha o regional que chega a Vila Real às 12h38

Fonte. Fugas

segunda-feira, 14 de março de 2016

Paquistão, um mundo à parte

Chego ao aeroporto de Lahore e, apesar da simpatia dos polícias da alfândega, sou questionado durante uns 15 minutos sobre a razão de visitar este país. Não é muito comum alguém visitar o Paquistão e talvez venha daí a curiosidade.
Saio do aeroporto e pergunto a um taxista se conhece a pousada para onde quero ir e ele diz que sim. Não era totalmente verdade: estive quase uma hora com ele à procura.

Depois de encontrar a pousada numa rua escondida no meio do nada, posso dizer que foi a noite mais barata onde alguma vez estive, 1,60€ por noite.

O Paquistão é, sem dúvida, um mundo à parte. Longe de tudo e de toda a tecnologia vemos as crianças a brincar nas ruas, mesmo chovendo.

As pessoas são bastante curiosas e quando nos vêem com uma máquina fotográfica também querem uma foto. O mais curioso é que ninguém conhecia Portugal: mesmo eu falando do Cristiano Ronaldo, eles ficavam pasmados a olhar para mim.

Contudo, o povo é bastante simpático e há sempre um sorriso puro e um acenar de mãos quando passamos. Quer queiramos, quer não, somos diferentes no tom de pele e no vestir e acabamos sempre por dar nas vistas.

A cidade de Lahore tem o seu encanto. Por um lado, temos ruas completamente loucas, onde burros e bicicletas transportam tudo. As ruas parecem labirintos e é muito fácil perdermo-nos. Eu, como gosto de me infiltrar no meio do povo e aventurar-me, acabei mesmo por me perder. Com a ajuda e a simpatia de uns polícias, lá encontrei o caminho de volta para a pousada.

Por outro lado, temos o forte de Lahore e a lindíssima mesquita de Badshahi, que é sem dúvida um contraste enorme com aquelas ruas estreitas onde constantemente temos de estar atentos para não sermos atropelados por bicicletas e pela multidão.
Fonte: Fugas

terça-feira, 8 de março de 2016

Qual a viagem que melhor se adequa a si?


Sugerimos que comece por divertir-se a jogar este desafio, que preparámos para que celebre connosco o nosso 6º aniversário J.
(sim, é hoje!)

E, mais a sério, cá estaremos para conversar consigo e ajudar a preparar as viagens de sonho que são realmente AS SUAS.


Obrigada por nos ter confiado a preparação das mais de 2.000 viagens à medida que já somamos. 


Suitcase Samurai


Até breve!

domingo, 6 de março de 2016

Vai passar por Lisboa? O New York Times diz-lhe o que visitar

Da próxima vez que passar por Lisboa, não deixe de visitar a zona do Intendente. Quem o aconselha é o New York Times que destaca cinco espaços a não perder: A Vida Portuguesa, Largo Residências, Casa Independente, Retrox Vintage Shop e O das Joanas.

O jornal destaca que o Intendente há muito deixou de ser uma “província de drogas e prostituição”, já que nos últimos anos viu os edifícios históricos a converterem-se em smart shops, cafés e bares. Um exemplo é A Vida Portuguesa, uma boutique repleta de produtos 100% nacionais e que revisita as marcas e objetos decorativos mais tradicionais.

Sobre o Largo Residências, trata-se de um edifício do século XIX com um programa de residências para artistas, um café, galeria e aluguer de bicicletas, quartos que podem ser requisitados por turistas, recebendo os artistas um desconto especial. Para cervejas e petiscos, o New York Times aconselha a Casa Independente que aos fins-de-semana tem também música ao vivo, seja um DJ ou uma banda de funaná.

Quanto à Retrox Vintage Shop, esta vende apenas itens portugueses das décadas de 50, 60 e 70, incluindo cadeiras com estrutura de metal e almofadas de pele bordadas. Por fim, do café O das Joanas, a publicação destaca as tostas cobertas de queijo dos Açores e os pastéis de nata, as partidas de xadrez, miniconcertos e ainda a esplanada com vista para a praça principal do Intendente. 

Fonte: Welcome 

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Madagáscar: Não é nada fácil chegar até aqui, mas mais difícil é partir

Île aux Nattes e Ifaty, uma no nordeste, a outra no sul do país, embora distantes entre si, têm em comum as belezas naturais e a simplicidade das suas gentes. E à medida que os dias se vão esgotando sem pressas, ao sabor do embalo das ondas e da alegria do povo, a atracção que exercem sobre o visitante aumenta mais e mais.
Reinava o silêncio quando, por fim, o taxi-brousse, depois de parar aqui e acolá, descarregar sacos, caixas, colchões, tábuas, chapas de zinco, acolher galinhas e todos os passageiros possíveis e sempre mais um, deu um último suspiro numa rua de terra batida bordejada por meia dúzia de casas. Quando o motorista do veículo desligou as luzes, o pequeno largo ficou nas trevas - não sabia que chão pisava, tão-pouco percebia em que ponto da vila me encontrava exactamente. A viagem, desde Antananarivo, a capital de Madagáscar, Tana para os mais íntimos, com uma curta escala em Toamasina, fora longa, cansativa, o corpo exigia repouso e o estômago pedia algo para saciar o apetite.
Limitei-me a seguir os passos de outros homens que, como eu, tinham acabado de chegar e, uma vez transposta uma porta, vi-me numa sala com pouco mais luz do que no exterior – resumia-se a uma vela por cada mesa. Olhava em redor mas apenas via silhuetas, uma ou outra sombra, fantasmagórica, desenhada nas paredes aparentemente lisas. Um silêncio sepulcral que, por breves segundos, associei a um velório e não ao ambiente de um restaurante. Mas o tilintar dos talheres e o prato que foi colocado à minha frente devolveram-me à vida – à realidade, perdão.
Não me recordava do nome da vila e os meus olhos, no meio daquela semipenumbra, também não ajudaram quando coloquei o guia sobre a mesa – com dificuldade viam o que comia. Hoje, quando penso no restaurante, tão modesto que nem baptizado foi, pergunto-me por que motivo não o achei, vendo o lado positivo da vida, um espaço romântico, com comida saborosa, à luz da vela, numa vila com uma toponímia tão sonante.
Soanierana-Ivono.
Saio para a rua e bem no alto, pálida, perscruto a lua, escondida daquela minúscula praça onde o táxi-brousse me deixara. Caminho lentamente, apenas iluminado pela bola redonda, quase às apalpadelas e chego, em poucos minutos, a um hotel – pelo menos anuncia-se como detentor desse estatuto.
Tonga soa!
A senhora deseja-me as boas-vindas. Sou recebido com amabilidade, não na recepção mas na cozinha aconchegada onde o fumo azulado da lareira sobe pela chaminé escurecida, e de imediato conduzido ao meu aposento através de um corredor a céu-aberto. Abre-se uma porta, uma lâmpada com uma luz débil cai do tecto feito de ramos de palmeira e à minha espera, bem no centro do espaço exíguo, um colchão.
Pergunto-me: quantos corpos terá já acolhido este colchão ao longo de uma vida que me parece demasiado longa? Ter-se-ão sentido felizes pelo descanso que lhes proporcionou?
Eu sinto-me feliz mas é uma felicidade efémera, não mais do que breves segundos, porque o sono não tarda a derrotar-me mal um pensamento rodopia no meu cérebro: não te esqueças de escrever que esta não é uma viagem para todos os corpos e muito menos ainda para todos os espíritos.
Desligo a luz mas quase nem precisava de o fazer.
Dependente das marés
Aos primeiros alvores do dia, quando acordo e saio para o exterior, é que percebo que acabo de pernoitar numa estrutura em madeira que se semelha, apenas na forma, às casas típicas de Santana, na Madeira. No horizonte cavalgam umas nuvens claras, os cheiros a comida inundam o ar; na cozinha, por onde volto a passar antes de me sentar de frente para as águas opacas, tachos e panelas estão ao lume, mais um dia como tantos outros, com dificuldades mas com sorrisos e palavras.
Manao ahoana ianao?
Tento responder em malgaxe:
Tsara fa misaotra.
Perante a boa disposição da senhora que parece estar ali a toda a hora, dificilmente um cliente poderá dizer que está mal e muito menos esquecer-se de agradecer a forma gentil como é tratado.
A sensação agradável que Antananarivo produziu em mim ameaça prolongar-se por mais uns dias. Uma boa meia hora mais tarde, chega o pequeno-almoço. Ao meu lado senta-se um adolescente. Sorri, um sorriso dócil, sem uma única palavra. A senhora acaba de pousar tudo o que carrega na bandeja e, antes de me virar costas, de volta à cozinha, diz:
- Mazoto a homana.
Agradeço. Apetite não me falta.
- Misaotra.
Como manda a boa educação, partilho a refeição com o menino. Ele não agradece, limita-se a esboçar um sorriso. Nas pupilas não se reflecte a minha imagem, projecta-se todo um país – as carências, a todos os níveis. À minha frente, os barcos vão chegando, com os seus passageiros, com legumes frescos, com peixe, com galinhas. O dia vai despertando: a menina que escova os dentes na margem, homens e mulheres, rostos emoldurados por sorrisos que parecem prolongar-se até à eternidade, abrindo as suas pequenas tendas de comércio, a bruma que vai subindo das águas como um vapor até desaparecer. E eu aguardo, pacientemente, que a maré seja favorável para oferry rumar até ao meu destino.
Caminho junto ao porto, crianças e idosos acolhem-me com um expressão serena e o rapaz, num silêncio que me perturba, segue os meus passos - parece perceber as minhas intenções quando fotografo as crianças, organiza-as, disciplina-as, fugindo, ele próprio, do protagonismo. Quando a manhã avança, já sem a neblina que marcara a alvorada, regresso ao hotel, retiro do meu saco um pacote de bolachas e, por essa altura, já o miúdo que me persegue como uma sombra tem um companheiro ao lado dele. O primeiro gesto, logo secundado por um dos seus milhares de sorrisos, é partilhar com o amigo aquilo que acaba de receber nas mãos.
Só nessa altura percebo que o menino é surdo-mudo.
Eu parto, por um mar revolto, rasgando-o, com ondas que agitam o barco, olho o cais, ele continua ali, de pé, com uma estátua, com a diferença de que vai acenando.
A vida simples
A ilha de Sainte Marie já se avizinha, o barco avança agora mais lentamente. No porto, à saída, respiro o ar e entro num carro de marca francesa, uma raridade por estes dias. Não há chave, apenas uma ligação directa, pelo meio uma pequena avaria, nada de anormal, até que chega onde uma piroga me espera. Durante a maré baixa, pode-se caminhar simplesmente entre a ilha de Sainte Marie e a Île aux Nattes.
A travessia é curta, do outro lado, mais sorrisos, um mundo que é de outro mundo, um mar de um azul sonhador, a vegetação para o interior, onde se esconde a recepção do hotel - a visão mais próxima que se pode ter do paraíso. Não há muito para visitar por aqui, leia-se monumentos, não há eventos culturais, há toda a simplicidade desta gente que ainda se apaixona pelas coisas simples da vida, talvez porque não conhece outra realidade, a que nos torna ambiciosos, a que nos faz aspirar a muito mais, numa perpétua exigência sem lógica e sem sentido. Para quem quer, a vida divide-se entre mergulho, pesca, um passeio de barco, horas e horas deitado na areia branca, escutando o rumor das ondas que se desfazem quase em silêncio.
Ao lado do hotel, para quebrar a monotonia, jogo futebol num relvado que é mais um ervado, com os jovens da aldeia que vestem camisolas de todos os clubes mais importantes da Europa, como alguém que carrega um sonho que nunca passará disso mesmo. Há um menino loiro, pouco habilidoso, que também se junta e a quem eles chamam, por entre muitas gargalhadas, dez mil ariary, como se aquelas pernas nada mais fossem do que uma unidade monetária.
Quando o ocaso está prestes a anunciar-se, caminho, quase sempre entregue à minha solidão, por pequenos trilhos por entre um mar verde de arrozais, observando as mulheres lavando as suas roupas e os utensílios de cozinha num riacho, vendo os meninos misturados com as meninas jogando à macaca, visitando uma escola, recebendo uma flor de uma criança com uns olhos tão vivos, acompanhando com o olhar os anciões nas suas tarefas agrícolas, vivendo a vida como a vida é vivida por aqui.
De quando em vez, como alguém que se cansa de morar no paraíso, acompanho os empregados do hotel, de barco, até à ilha de Sainte Marie: eles vão comprar o que é apenas necessário, eu limito-me a errar por perto, sem rumo, observando a natureza, as árvores com os seus troncos que não se conseguem abraçar e os seus ramos onde não cabe nem mais um pássaro, multiplicando os silvos como uma orquestra desafinada. E volto, pouco tempo depois, até ao meu pequeno lugar que podia caber no céu, esperando que as cores crepusculares tombem sobre a praia deserta e de onde apenas se avista um pescador solitário lutando, ao largo, no mar que brilha como um milhão de espelhos, pela sua sobrevivência.
O reencontro
Uns dias mais tarde, sob um céu vestido de múltiplas cores que anunciam a alvorada, deixo, imbuído de um sentimento de pena, a simplicidade e a humildade das gentes da Île aux Nattes para trás. Comigo, na piroga que me conduz a Ankarena, já em Sainte-Marie, a ilha cuja forma sugere uma mulher grávida deitada, pouco mais levo do que uma doce memória e a esperança de um dia voltar a reviver esta existência singular e despretensiosa.
ferry, partindo de Ambodifotatra, sulca as águas do Índico e, após uma hora e um pequeno susto (um pedaço de madeira que por pouco não provocava danos no motor), abranda a sua marcha acelerada e atraca, ao início da manhã, já sob um céu azul, no rudimentar cais de Soanierana-Ivongo. Disponho ainda de algumas horas, tomo o pequeno-almoço no modesto hotel que me abrigara e pergunto, mal me sento, pelo menino surdo-mudo, a quem gostaria de oferecer algumas das minhas roupas que não me fazem falta.
- Deve andar por aí, diz-me uma jovem com um bonito chapéu rendilhado de abas largas que lhe desenha sombras geométricas sobre o rosto.
A manhã avança e o autocarro está prestes a partir para Toamasina e para ele caminho ao longo da rua esburacada e de terra batida. À direita, avisto um pequeno e básico carrinho de madeira carregado com malas de turistas. Nesta tarefa, que rapidamente se esgota, participa o miúdo, de costas para mim. De repente, vira-se e, reconhecendo-me, corre na minha direcção para me abraçar.
O motorista do taxi-brousse liga o motor e o menino por ali fica, com as roupas nas mãos, sem lhes prestar grande atenção, fitando-me, sorrindo, acenando. Nunca soube o nome dele – mas os nomes são como as palavras, tantas e tantas vezes dispensáveis.
Volto a Tana, mora mora, como se diz por aqui, devagar, devagar, e logo rumo a Toliara, ao longo da mítica N7, uma aventura que qualquer viandante deve fazer pelo menos uma vez na vida.
Chegada ao sul
- É o Bruno! É o Bruno!
Quem me acompanhava, nessa altura, lançou-me um olhar e logo outro ao céu, como quem pede uma intervenção divina: clemência para a minha aparente demência.
- É o Bruno! É o Bruno!
Sentado na esplanada do restaurante, em Toliara, no mesmo que me haviam recomendado, com a garantia de ser o melhor da cidade, estava o Bruno Decorte, um belga que conhecera no Bairro Alto, em Lisboa, quando era gerente de um restaurante na Rua do Norte e, ao mesmo tempo, um dos proprietários do Chapitô.
O reencontro, meramente casual, provocou surpresa aos dois, por ocorrer, tantos anos depois, a uma tão grande distância – um pretexto para um tempo de celebração, com umas THB (Three Horses Beer, a cerveja mais popular em Madagáscar) pelo meio antes da despedida mal a tarde anuncia extinguir-se.
No terminal, onde chego de pousse-pousse (riquexó), as mulheres, com os seus rostos carregados de masonjoany, vendem peixe e gostam de ser fotografadas. Entro numa bâché, uma desconfortável pick-up, quando o sol doura a terra, lançando os últimos raios, e durante mais de uma hora, sempre aos saltos como um canguru, observo a vida ao final da tarde ao longo da estrada poeirenta que conduz a Ifaty e que me recebe já sob um céu nocturno.
O mar está imerso nas trevas, dele apenas chega o murmúrio sereno das ondas, é um apelo irresistível a um mergulho, mesmo a esta hora. Só no dia seguinte me lembro de que me esqueci dos chinelos de praia sobre as areias ainda quentes. Ao início da manhã, da varanda do bungalow que se projecta sobre a praia, em parte envolto pela sombra dos ramos dos coqueiros, o mar e o céu fundem-se em azuis e servem de pano de fundo à vida que vai decorrendo sem quebras com a rotina diária.
Mulheres e crianças testam, durante a maré-baixa, a generosidade do mar; homens e adolescentes têm as suas pirogas prontas para um simples passeio, mergulho ou pesca ao largo da costa; quatro crianças surgem, de pés descalços, cada uma segurando uma galinha, incitando-me a comprar mas com mais sorrisos do que convicção.
Ifaty é um lugar que transporta para um outro tempo. Aqui e acolá, preso a um gigantesco tronco de uma árvore ou na porta de uma mercearia, um anúncio, escrito à mão: uma noite de discoteca ou um concerto. Hoje à tarde há boxe.
Caminho pela aldeia de pescadores, por entre as suas casas, e desemboco num descampado rodeado por um conjunto de árvores em cujos ramos se sentam miúdos mais ágeis do que pássaros; no que em tempos foi um bidão de combustível, um pedaço de madeira, manejado por um adolescente, descarrega a sua fúria. Uma jovem, com uma blusa azul de alças, rompe por entre o público que se acotovela formando uma lua cheia. Ergue um dedo, um sinal desafiador, e logo depois envolve-se na luta com um rapaz, mais um espectáculo de rua, teatral, do que uma manifestação de violência.
Olho para o chão que piso e, mesmo ao lado, nos pés de uma mulher, vejo os meus chinelos de praia.
Os combates vão prosseguindo, encarnando a vida dos malgaxes, na aldeia, as mulheres vão cozinhando no exterior, em frente à casa, os mais pequenos brincam na rua, pontapeando uma bola por entre a poeira que se levanta no céu que se vai vestir como apenas se veste em África. Puxado por dois bois, comodamente instalado numa carroça que se queixa da idade, vou perdendo o cheiro do mar e ganhando outros odores à medida que, percorrendo um trilho, me embrenho pelo meio da vegetação. Por aqui e por ali, como num museu com as suas pinturas, árvores com troncos impossíveis de abraçar, com as suas formas generosas, como damas com influência na alta sociedade.
Uns dias depois, numa piroga convertida à vela, os silêncios do mar recordam os silêncios sob a sombra dos baobás; ao longe, perdendo-se no horizonte, avistam-se barcos de pescadores.
No mar e em terra, em Ifaty ou na Île aux Nattes, os dias são feitos de paz. Uma e outra exigem muito do viandante, horas e horas na estrada, mas difícil mesmo é deixá-las para trás.
O camião, largando uma grande nuvem de fumo, parte para Toliara. A vida, essa, decorre como sempre decorreu.
Guia prático
Como ir
Devido à pouca concorrência nos voos com destino ou partida de Antananarivo, espere pagar um pouco mais de mil euros para viajar entre Lisboa e a capital de Madagáscar. A melhor oferta e talvez a opção mais prática passa pela Air France, com uma escala em Paris e um preço (depende sempre das datas e da antecedência com que reserva) a rondar os 1060 euros (ida e volta).
Há outras companhias aéreas, como a KLM, em conjunto com a Kenya Airways, que também servem o aeroporto internacional de Ivato mas nenhuma delas proporciona melhores tarifas do que a Air France, com a vantagem de esta implicar apenas uma escala – se viajar com a KLM terá forçosamente de fazer paragens em Amesterdão e em Nairobi. Pode também consultar sempre a Corsair, que também efectua ligações directas desde a capital francesa a Antananarivo. Se não for do seu agrado viajar por via terrestre, a Air Madagascar voa entre Antananarivo e Sainte Marie por cerca de 470 euros (ida e volta), uma tarifa igual à que pratica nas ligações a Toliara, no sul do país. Neste caso, talvez fique mais em conta viajar com a mesma companhia aérea desde Marselha ou Paris e fazer uma escala na capital malgaxe.
Caso opte pelo barco para chegar a Sainte-Marie ou à Île aux Nattes, é importante ter em conta que os horários das partidas de Sonierana-Ivongo estão dependentes das marés. Viajar de taxi-brousse é extremamente barato e pode sempre efectuar uma paragem ao longo da N7 antes de chegar a Toliara (até porque a circulação rodoviária durante a noite não é habitual, pelo menos em grandes distâncias). A melhor hora para garantir transporte é durante a manhã.  
Quando ir
Uma vez que Madagáscar, uma ilha situada no Oceano Índico (quase toda nos trópicos), a menos de 500 quilómetros de Moçambique, ocupa uma vasta área (587 km2, quase sete vezes maior do que Portugal, 1600 quilómetros de norte a sul, 570 de ocidente a oriente e mais de cinco mil quilómetros de costa), facilmente se depreende que pode experimentar diferentes tipos de climas em simultâneo. Tanto é possível desfrutar de um sol radioso no sudoeste como, apenas uns dias depois, ver-se confrontado com o frio nos altos planaltos.
De uma forma geral, a melhor altura para viajar por Madagáscar é entre Abril e Dezembro. Os únicos meses a evitar, por coincidirem com a época das chuvas, são Janeiro, Fevereiro e Março, quando muitas das estradas se tornam lamacentas e intransitáveis. É também durante este período que o risco de ciclones se torna mais elevado, especialmente no leste e no nordeste da ilha.
Durante o Inverno, de Maio a Outubro, o maciço central, incluindo Antananarivo, proporciona dias frios, húmidos e ventosos mas, ao mesmo tempo, calor e muitas horas de sol na costa oeste e no sudoeste. Nestas últimas, os verões são tórridos e os invernos caracterizam-se por temperaturas agradáveis, de céu azul e escassa precipitação. No leste e nordeste é bom que se prepare para chuva e nebulosidade em qualquer altura do ano
Onde Comer
Um pouco por todo o lado, na Île aux Nattes ou em Ifaty, os hotéis constituem as melhores opções. Na ilha, pode experimentar o Le Maningory (combarbecue) ou o Les Lemuriens, com bons pratos de peixe e marisco sempre frescos. No sul, em Toliara, não deixe de passar pelo L’Etoile de Mer, na Boulevard Lyautey, aberto de segunda a sábado e especializado em comida afegã, indiana, mas também com boas pizzas e marisco fresco. Em Ifaty (na verdade em Mangily, mesmo ao lado), a melhor opção, se preferir evitar os hotéis mais caros, passa pelo Hôtel Vovo Telo, com uma gastronomia francesa (e peixe e marisco) que não desilude.
Onde Dormir
Na Île aux Nattes, o melhor lugar para passar uns dias tranquilos, num ambiente rústico, decorado com bom gosto e relaxante, é o Le Maningory, situado numa praia soberba no nordeste da ilha. O hotel dispõe de bungalowsfeitos de madeira e bambu, mosquiteiros, varandas com vista para o jardim e de um restaurante/bar, oferecendo ainda a possibilidade de alojamento em meia-pensão. Tanto pode optar por um bungalow standard (entre 33 e 37 euros), como por um familiar (para cinco pessoas e com um custo de 64 euros) mas a este preço terá de acrescentar mais quatro euros se desejar pequeno-almoço. O Le Maningory assegura ainda o transporte desde o aeroporto sem qualquer custo adicional e, se chegar de piroga sem ter efectuado reserva, a despesa também é suportada pela gerência.
Ainda na Île aux Nattes, tem como alternativa o Les Lemuriens, igualmente em frente à praia e com bungalows para duas pessoas a partir de 39 euros por noite – os mais pequenos ficarão felizes quando avistarem uma família de lémures que habitualmente erram por perto ou mesmo na área do hotel.
Mais a sul, se desejar viver uma experiência memorável, dividida entre conforto e tranquilidade, não deixe de reservar no Bakuba, um pequeno hotel para viajantes que dispõe de apenas três quartos (105 euros por noite) e duas suítes, uma situada no edifício principal (140 euros) e outra, com vista para o mar, com jardim privativo e casa de banho exterior (160 euros). Situado a escassos sete quilómetros do aeroporto e a 14 do centro de Toliara, o Bakuba oferece aos seus clientes a possibilidade de descobrirem a região de Saint Augustin e de Sarodrano, ao longo de uma pista com paisagens soberbas da natureza malgaxe, e ajuda a elaborar um plano de visitas e de actividades que incluem passeios de carro, de catamarã, de caiaque ou de piroga.
Em Ifaty (Mangily), por um preço económico (cerca de 20 euros), pode ficar alojado num bungalow com vista para o mar no Hôtel Vovo Telo ou no Bamboo Club Ifaty, com piscina exterior e restaurante, entre outras facilidades (tarifas a partir de 25 euros incluindo pequeno-almoço).
Com relativa facilidade irá encontrar, ao longo da ilha, a palavra hotely – não se trata de hotéis mas de casas que servem refeições básicas.
A visitar
Na ilha de Sainte Marie, em Ambodifotatra, encontrará a igreja católica mais antiga de Madagáscar, datando de 1857 e um presente da imperatriz Eugénia de França. A cidade acolhe também, diariamente, um interessante mercado e, mesmo ao lado da baía des Forbans (apenas acessível a pé durante a maré-baixa), pode visitar o cemitério dos piratas, que, inclui, alegadamente, o túmulo de William Kidd, o mais infame de todos – no início do século XVIII, a ilha de Sainte Marie era o quartel-general dos piratas e uma base ideal para emboscadas aos comerciantes que faziam as ligações marítimas entre a Europa e o Extremo-Oriente, passando pelo cabo da Boa Esperança.
Entre Julho e Setembro, centenas de baleias nadam ao largo da ilha e todos os anos, durante cinco dias, em finais de Agosto/início de Setembro, tem lugar o festival das baleias na îlot Madame, um evento que inclui exibições, conferências, venda de artesanato, concertos e o concurso de beleza Miss Zagnaharibe.
Informações
Para visitar Madagáscar é necessário ter passaporte com pelo menos seis meses de validade (em relação à data de partida) e, uma vez no aeroporto, obter um visto, um processo simples (se excluir o tempo nas filas) que não carece de fotografia mas implica ter na sua posse um bilhete de regresso. O visto é gratuito para todos aqueles que não permanecerem na ilha mais do que um mês (45 euros para 60 dias e 70 euros para três meses).
O francês é a língua oficial deste país com cerca de 22 milhões de habitantes, em tempos conhecido pela designação de República Malgaxe. Malgaxe é também a única língua falada e escrita (em ementas dos restaurantes, por exemplo) nas zonas mais remotas. Se não fala francês e pretende viajar de uma forma independente e pelos lugares menos turísticos, é importante que se faça acompanhar de um guia prático ou por alguém que tenha pelo menos conhecimentos básicos da língua (apenas uma escassa minoria – e quase exclusivamente em grandes hotéis - se faz entender em inglês).
Hotéis, atracções turísticas mais populares e todos os meios de transporte, tanto aviões como autocarros, têm a sua lotação esgotada durante o período de férias na Europa, em Julho e Agosto, no Natal e na Páscoa, uma tendência que é acompanhada pela subida dos preços.
Antes de viajar é importante que tenha em conta o alto risco de contrair malária (a prudência, mesmo não sendo suficiente para evitar, exige-se), que deve fazer-se acompanhar de um bom repelente para os insectos e de uma lanterna para o caso de pretender caminhar durante a noite.
Madagáscar substituiu, há mais de dez anos, o franco malgaxe pelo ariary, a moeda em circulação antes de a ilha ser colonizada pelos franceses. O câmbio flutua diariamente (um euro equivale a aproximadamente 3500 ariary), pelo que se aconselha trocar apenas o necessário. Alguns hotéis aceitam pagamentos em euros e também oferecem a possibilidade de converter, sem encargos de taxas, moeda estrangeira em ariary.
Algumas cidades mantêm os nomes em francês e em malgaxe e não se admire quando ouvir ou ler Tuléar em vez de Toliara, Tamatave no lugar de Toamasina ou Nosy (significa ilha em malgaxe) Boraha ou Nosy Nato quando se referem a Sainte Marie e à Île aux Nattes, respectivamente.
A diferença horária entre Portugal e Madagáscar é de mais três horas.