quarta-feira, 27 de abril de 2016

Os 15 novos brunches de Lisboa e Porto

Há sugestões a partir 7€, à carta ou em buffet. Abriram todos nos últimos meses.
Há mais espaços em Lisboa e no Porto para experimentar a melhor refeição da semana. Sábados e domingos pode dormir até mais tarde que existem novos restaurantes e cafetarias que lhe servem o pequeno-almoço fora de horas. Em versão buffet ou à carta, há 15 novos sítios com brunch nas duas cidades. O melhor mesmo é o preço: a partir de 7€.

Um dos mais recentes espaços de Lisboa com brunch é o Querido Bistro. Abriu junto à Assembleia da República, em São Bento. Durante a semana serve pequeno-almoços idênticos aos de um hotel e o brunch é aos sábados, também em modo buffet.

No Porto, há menos opções — parece que o brunch não atraiu muito os responsáveis dos novos restaurantes da cidade. Ainda assim pode provar a refeição na Casa de Chá Mil Folhas.

Consulte o seguinte link e saiba mais: http://www.nit.pt/article/04-22-2016-os-15-novos-brunches-de-lisboa-e-porto


Fonte: New in Town (NIT)

sexta-feira, 22 de abril de 2016

"As 5 coisas de que eu mais gosto em Berlim"

Afonso Rocha, 18 anos, estudante de música na escola Hochschule für Musik Hanns Eisler. Vive em Berlim desde Setembro de 2015. Fique a conhecer  aquilo que Afonso destaca desta magnífica cidade.

1.
Riqueza cultural
Distinguida como uma das principais e mais desenvolvidas cidades europeias, Berlim é uma cidade que oferece uma diversidade e qualidade cultural notáveis. A Ilha dos Museus, constituída por cinco museus e situada bem no centro de Mitte, é um ponto-chave para quem decidir visitar esta capital europeia.
2.
Conteúdo histórico
A Alemanha foi um dos principais intervenientes naquele que foi um dos maiores massacres da História da Humanidade, a Segunda Guerra Mundial. Em Berlim, é possível estar em contacto com pequenas partes do muro, visitar o Memorial do Holocausto e estar a poucos quilómetros de um dos mais conhecidos campos de concentração: Sachsenhausen.
3.
Música
Sendo músico, a oportunidade de estar em contacto com uma das melhores orquestras do mundo, a Orquestra Filarmónica de Berlim, e com músicos do mais alto nível e renome internacional, é uma experiência extremamente enriquecedora e gratificante.
4.
Espaços verdes
Apesar de ser uma das cidades mais importantes e influentes da Europa, e conter quase quatro milhões de habitantes, cerca de 1/3 de Berlim é composto por espaços verdes, lagos, parques, rios, Natureza… Mauerpark e Tiegarten são alguns dos excelentes exemplos destes espaços verdes em Berlim. Aconselho vivamente a visita ao Zoologischer Garten para um dia bem passado em redor dos animais!
5.
Facilidade de movimentos
A cidade de Berlim está incrivelmente bem organizada relativamente à sua rede de transportes. Consegue possibilitar-nos, através do comboio, metro, eléctrico e autocarros, várias opções para alcançarmos o nosso destino. Além disso, a cidade tem a capacidade de receber os amantes do ciclismo, proporcionando-lhes vias de enorme qualidade.

Fonte: Fugas



sexta-feira, 15 de abril de 2016

O "farrobodó" volta ao Palácio Chiado


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Os lustres estão reluzentes, os frescos bem restaurados, o vitral imponente. A festa regressa ao palácio e desta vez o povo pode entrar.

Já há música ambiente, luzes por trás do bar, bebidas arrumadas, fruta em cima do balcão. Mas ainda há escadotes no chão, restos de andaimes, berbequins. Quando a Fugas visitou o Palácio Chiado – antigo Palácio Quintela – faltava menos de uma semana para a sua abertura que, se não houver surpresas de última hora, será já esta quarta-feira. A casa setecentista volta a abrir as portas e para entrar não é preciso um convite lacrado. Só vontade de beber um copo ou comer qualquer coisa.
Passamos a enorme porta de madeira com os seus leões nos puxadores mas não nos pomos a imaginar as senhoras a subir levemente os vestidos para dar um passo atrás do outro. Por este espaço amplo espalham-se pequenas mesas quadradas em madeira escura ou lioz (e vasinhos com plantas de plástico em cima), duas pilhas de colchões quadrados no chão, uma ou outra poltrona à esquerda.
Duarte Cardoso Pinto, um dos sócios, faz a visita guiada. À direita, então, o bar. Ao fundo, a cozinha antiga – ainda vemos azulejos e duas chaminés originais; há réstias de alhos, cebolas e louro penduradas na parede. Instalaram-se aqui o Burgers&Feikes (do U-try, e que terá, entre outras originalidades, um hambúrguer de cozido); o Meat Bar (derivado do restaurante Atalho), que aposta em carne de boa qualidade; o Local Chiado (pelo Local – Your Healthy Kitchen, criado pela blogger Maria Gray), de alimentação saudável; e o Páteo no Palácio (do Páteo do Petisco), dedicado aos petiscos tradicionais portugueses. “Queríamos uma coisa que representasse a portugalidade, mesmo nos hambúrgueres”, diz Duarte Cardoso Pinto. A ideia é agarrar no prato e sentar onde se quiser. Uma espécie de Mercado da Ribeira em cenário chique.
Sobe-se a imponente escadaria (que tem ainda os candeeiros originais) e acede-se às salas nobres (onde sobe também o preço). O espaço dividido por três zonas distintas está concessionado à Espumantaria do Mar (pela Espumantaria, com o acompanhamento de Vítor Hugo, chef executivo do 100 Maneiras); o DeLisbon (pela Charcutaria Lisboa, com enchidos, queijos e tapas, com carta e acompanhamento de Vítor Sobral); e na ala esquerda, o Sushic Chiado, de comida japonesa (que tem estado instalado em Almada, e que é considerado pelos utilizadores do TripAdvisor o segundo melhor restaurante japonês fora do Japão).
Aqui temos já quatro sushimen a trabalhar afincadamente. Do lado oposto, a vista para o Largo Barão Quintela e para a Rua do Alecrim, que termina com o rio ao fundo.
As obras de restauro das salas, de tectos abobadados e cobertas de frescos (de alegorias mitológicas), levaram seis meses a concluir, diz Duarte Cardoso Pinto, que não quer adiantar o montante do investimento aqui feito. Depois, foram mais cinco para adaptar o espaço. Frederico Valsassina assinou o projecto de arquitectura, Elvira Barbosa o do restauro, Catarina Cabral encarregou-se da decoração.
Já a ampliação feita em 1822 foi dirigida pelo arquitecto Joannes Baptista Hilbrath, com o estucador Félix Salla, o decorador Giuseppe Cinatti e os pintores António Manuel da Fonseca e Cirilo Volkmar Machado, indica-nos a cronologia do livro Palácio Quintela – Iconologia do Programa Pictórico, de Manuel J. Gandra. O livro assinala também: “1801 – A 11 de Dezembro, nasce, no Palácio da Rua do Alecrim, o futuro 2.º Barão de Quintela, também batizado Joaquim Pedro de Quintela. 1.º Conde de Farrobo. Uma figura que, apesar da relevância na vida política, social e cultural de Portugal, será para sempre lembrado pela sua faceta dos excessos e festins desmesurados. E intrinsecamente associado ao Palácio nasce então a famosa expressão: ‘farrobodó’.”
Depois da fuga para o Brasil do barão Quintela (defensor do liberalismo), o palácio abrigou o Grémio Literário (entre 1873 a 1874), e em 1874 foi adquirido em hasta pública por Francisco Augusto Mendes Monteiro (“figura de cultura e excentricidade, teve das últimas grandes intervenções artísticas no Palácio”), que mandou construir também a Quinta da Regaleira, em Sintra. Foi ainda o Museu Instrumental Português (em 1915), antes de acolher o Instituto de Arte e Decoração – Escola Internacional de Decoradores (IADE), em 1970.
Certamente que não era preciso pagar à saída nas antigas festas de arromba – ou à grande e à francesa, porque consta que a expressão nasceu justamente aqui, quando o general Junot, durante a primeira invasão francesa, fez desta a sua residência oficial. Agora, não há outro remédio: são 15 euros por pessoa no piso 0 e entre os 25 e os 50 euros no piso 1.
Palácio Chiado
Rua do Alecrim, 70 - Lisboa
Tel.: 210 101 184
Email: geral@palaciochiado.pt
Horário: de domingo a quarta-feira entre as 12h e as 24h; de quinta a sábado entre as 12h e as 2h

Fonte: Fugas

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Qual a viagem que melhor se adequa a si?

Sugerimos que comece por divertir-se a jogar este desafio, que preparámos para que celebre connosco o nosso 6º aniversário J.
(sim, é hoje!)

E, mais a sério, cá estaremos para conversar consigo e ajudar a preparar as viagens de sonho que são realmente AS SUAS.

Obrigada por nos ter confiado a preparação das mais de 2.000 viagens à medida que já somamos.
 
A TravelTailors agradece à Christina Brühl e ao André Narciso o desenvolvimento e implementação deste jogo.

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Cambodja: a voar por cima das águas


Uma jornada de barco de Siem Reap a Battambang, ao longo do lago Tonlé Sap, um ecossistema ímpar no mundo. E uma viagem no tempo até um santuário inspirador.
Siem Riep, a porta de entrada de Angkor, cresceu na proporção do acréscimo de popularidade da antiga capital khmer e da expansão dos fluxos turísticos para a região. É o principal suporte logístico para os mais de dois milhões de visitantes que Angkor recebe em média por ano e tem, também, os seus próprios atractivos, mesmo se um punhado se confina a um tipo de animação comum noutros lugares – os bares em espaço aberto com música ao vivo de (presumível) agrado dos forasteiros, a comida de rua, as barraquinhas de batidos de fruta tropical a um dólar e, ainda, as sopas vegetarianas da gastronomia khmer e o sempre bem apimentado lak lok, noutros algures mais populares e mais afastados da excitação turística.  
Em todo o caso, Siem Reap, para além dos preâmbulos hedonistas que antecipam o mergulho na selva de Angkor, pouco tem para cativar o turismo cultural. Para um complemento da visita à antiga capital khmer, é preciso arriscar uma aventura por um território militarizado, ainda há pouco tempo palco de confrontos entre os exércitos da Tailândia e do Camboja, na província de Preah Vihear, uma região em que os khmers vermelhos resistiram muito para além da queda do regime de Pol Pot, deixando a mortífera herança de campos que ainda hoje permanecem por desminar.
Após longas horas de solavancos, embarcados nas velhas carripanas Tata dos transportes públicos cambojanos, chegamos à fronteira tailandesa e ao templo Preha Vihear, um brilhante exemplo da arquitectura khmer. O Preha Vihear mantém-se objecto de disputa entre o Camboja e a Tailândia, tendo relançado o desentendimento entre os dois países em 2008, o ano da sua classificação como Património Mundial pela UNESCO.
Mas não se ocupa agora a narrativa com essas andanças pelo extremo norte do Camboja. Vai o viajante noutra direcção, a de poente, animado por outras seduções. Viu Angkor, já sem a ingenuidade de António da Madalena – o português que foi o primeiro europeu a meter-se por aquelas selvas –, e agora dá-lhe para ir espreitar o milenário templo de Banam, lá para os lados de Battambang.
Abala de autocarro ou de barco, navegando através do lago Tonlé  Sap? Tem de desempatar até ao cair da noite, aconselha o patrão da guesthouse, que se declara pronto para mandar vir o bilhete através de um daqueles esquemas locais, muito propícios, que permitem à hotelaria do Sudeste Asiático facilitar a vida aos viajantes.
O Tonlé Sap desfaz a hesitação com o trunfo de uma proverbial singularidade do ecossistema. Isto ouviu dizer, ou leu em fonte esquecida, o viajante, que pouco mais sabe quando chega a hora de pousar os pés no barco. Vai, enfim, e depois de umas semanas a cismar na viagem, dar uma vista de olhos ao lago. Consigo leva um pdf da UNESCO para se inteirar do assunto ao longo da navegação – assim como quem se prepara com um romance policial para um cruzeiro de luxo.
Au revoir, dear Mr. Ho
Mal amanhece, ainda com as primeiras cantorias da passarada, somos recolhidos por um tuk-tuk  à porta da Oral d'Angkor Guest House. Sanae Kondo, uma japonesa de Okinawa que se prepara também para a aventura da jornada aquática pelo Tonlé Sap, pousa a mochila no veículo e faz um aceno de despedida a Mr. Ho-Chi-Minh, como ela gosta de se referir ao anfitrião daguesthouse, com quem se entretinha às vezes a falar em "franglês", mesclando o seu ágil inglês com um francês muito assim-assim. Mr. Ho, circunspecto e venerável na sua barbicha prateada, pontiaguda, olhos miúdos e expressão pensativa, acaba de cumprir as suas orações matinais à beira de um incensário budista, num canto do pátio, a dois metros da mesa de bilhar.
Sorri com o olhar um sorriso reservado, quase invisível, mas desses que nos ficam na memória até ao último dia de vida, e suspira em voz baixa: "Au revoir mes amis, bonne journée". Muito pouca gente fala francês na Indochina, do antigo colonizador sobraram sobretudo a arquitectura e os croissants. Um exagero? Apenas um nada de quase nada – às vezes o estilo obriga a um inócuo il faut dire n’importe quoi. Afinal, dos mais ou menos inimigos que bombardearam com prodigalidade os vizinhos da região – os Laos e os Vietnames – ficaram também a língua de Shakespeare, a desbaratar a de Hugo, os refrigerantes apátridas, os bares com nomes como Apocalipse Now. E Sodomas neo-capitalistas ilustradas com bandeiras vermelhas guarnecidas com uma foice e um martelo: Sanae tinha chegado uma semana antes de Saigão (Saigon, ainda, para muitos vietnamitas) e contara-me o que mais a tinha impressionado na agora estância de férias de veteranos de guerra norte-americanos e outros turistas nostálgicos de novidades aventurosas, orientais, exóticas.
O barco vai de saída
No cais da aldeia de Cheong Khneas, a uma dúzia de quilómetros de Siem Reap, há muitos barcos – de passageiros ou simples canoas de pescadores – ancorados. Os viajantes são encaminhados aleatoriamente para os três que estão prestes a navegar para Battambang. Perco-me de Sanae, que avisto depois sentada sobre a cobertura de uma barcaça de madeira, numa vaga posição de ioga e encostada à mochila com o seu eterno sorriso de Buda indiferente ao mundo. Sento-me também sobre o tejadilho de um batel altamente suspeito quanto a questões de segurança: esguio, madeira colorida de fresco a cobrir as cicatrizes  de muitas monções debaixo de chuva. O tejadilho do Chann Na enche-se até já não haver espaço para esticar as pernas, as mochilas dos backpackers ajeitadas para fazerem de almofadas durante as dez horas de viagem ao sol até Battambang, capital de uma das províncias mais ocidentais do Camboja, confinante já com o Golfo da Tailândia.
Largamos numa algazarra de cordas a voar e gritaria, e durante a primeira meia hora o Chann Na parece uma jangada arrastada por um fluxo de águas barrentas desde o canal de Cheong Khneas. Atravessamos depois, ao longo de mais de uma hora, uns corredores estreitos entre vegetação flutuante ou enraizada entre fugazes pedaços de terra aqui e ali visitados por canoas de gente à pesca. Passamos devagarinho por estes canais e assusta-se a passarada, um ou outro peixe salta desafiante, há dois, talvez três, passageiros que arriscam o desequilíbrio numa fotografia atrevida. O alvoroço tem fundamento neste mundo inscrito parcialmente na lista da Convenção de Ramsar e depositário de uma muito citada biodiversidade.
Mais adiante, à saída de um canal sitiado por vegetação arbustiva mais densa, o horizonte amplia-se de rompante e o vasto espelho azulíssimo do lago Tonlé Sap, um céu debaixo de outro céu, faz a sua aparição num além ainda um pouco distante. É para lá que se aguça a proa do barco, que se apressa agora mais ligeiro, como se a voar por cima das águas, como diria Fernão Mendes Pinto, que por bandas próximas daqui andou também velejando, há uns quatro séculos, no seu caminho de Patane a Ayutthaya, a então capital do reino do Sião.
Endereços que mudam
A primeira aldeola flutuante, se não se contar Cheong Khneas, o porto de partida: casinhas móveis, flutuantes, com telhados de zinco, uma igrejinha azul, casebres com ar de galinheiros onde mora gente, um edifício governamental todo janota, muitos barcos nas suas fainas de pesca e de transporte de mercadorias deslizando por uma larga avenida de água, crianças brincando nos únicos quintais possíveis, metidas em grandes bacias de alumínio a fazer de barquinhos de brinquedo.
A vida corre toda sobre a água neste mundo de gente anfíbia que muda de endereço quando muda a estação: durante a monção, com a subida das águas, o casario troca de poiso e de configuração, um pouco como acontece com as aldeias flutuantes dos Uros do lago Titicaca, nos Andes. É gente anfíbia e mais aquática do que outra coisa. Vão a terra uma ou outra vez, mas quase tudo se faz de barco. Vai-se às compras de barco, como aos templos, à igreja cristã e azul, a casa dos vizinhos, à escola. Com as suas mochilinhas e as fardas do regulamento, lá vai a petizada toda a remar.
O Tonlé Sap, classificado como Reserva da Biofera desde 1997, é tudo para esta gente. Não é apenas a maior reserva de água doce do Sudeste Asiático; é também uma imensa reserva de pesca, uma das mais fecundas do mundo. Está agora ameaçado pela pressão excessiva das actividades piscatórias – tragicamente o único recurso disponível para as populações das aldeias flutuantes dispersas pelo lago. O governo legisla constrangimentos, reproduzindo as lógicas de conservação habituais entre os sítios classificados como Reserva da Biosfera – mas sem outros programas de compensação eficazes, o ciclo de pobreza tende a agravar-se. Num tão belo cenário, de abundância ameaçada, o que não fica nas imagens digitais dos viajantes em trânsito é o que Wang Jian, um jornalista de Singapura que segue também a bordo do Chann Na, sintetiza no que para ele poderá ser o título adequado para a reportagem que tenciona escrever para um jornal de Singapura: The dark side of the lake.
Miradouro em movimento
Às tantas, a tarde a meio e dissipadas as sete hipotéticas horas de jornada, na previsão mais ilusionista, vai uma parte dos passageiros inconsolável já de demasiada aventura, ou da falta dela, encurralada a expedição numa peganhosa monotonia... Um ramerrão enfadonho – há-de matutar a sonolência de uns quantos, a cabecear com o calor e o balanço –, este de só água e céu a vista alcançar e de os barcos só ao longe se darem a ver, que nem neles os indígenas se distinguem ao estender os braços no arremessar das redes, vagas silhuetas, apenas, em contraste com o clarão da linha do horizonte. Uns dormitam, numa aflição de (não) ver o tempo passar, tão calaceiro, outros recolhem-se, alheados da viagem, em leituras de best-sellers.
A dormência da luz, a humidade tropical e o sono quase fazem perder a transição: de um momento para o outro navegamos outra vez num braço de água, de novo enlameada, furando entre barrancos baixos e caniçais, num lanço a contra-corrente. Subimos agora o rio que vem de Battambang, o Sangkae, um dos muitos cursos de água que alimenta a reserva do Tonlé Sap. O motor da lancha ronca e as margens devolvem-nos um eco cavo e contínuo, belicoso, nada bucólico. É por estas bandas que se aclara a causa do desagrado dos pescadores locais por estas pitorescas jornadas de desocupados estrangeiros: enrolam-se as redes nas hélices intrusas e depois de arrastadas pausas para as libertar, com a barca a sacudir-se em espasmos, para ali ficam, rotas, retalhadas, sob o mirar submisso dos fotogénicos nativos.
Para um vago apaziguamento desta rudeza de cenário precisaremos de atingir, mais adiante, trechos abertos para o horizonte, onde panoramas mais desafogados nos darão a ver a faina dos camponeses, os campos amanhados para a sementeira do arroz, o labor de crianças e mulheres curvadas sobre a terra. Diante do barco – um espantoso miradouro em movimento – vai desfilando nas margens o casario repousado em estacas, construções em palafita tão comuns nestes sítios quanto as casas flutuantes que deixamos para trás, no lago: pobres e altivas, parecem elas próprias acenar-nos com tanta hospitalidade como os seus inquilinos, especados nas margens com canas de pesca, grandes bacias, enxadas ou um chapéu de palha nas mãos.
Um rio que corre às avessas
À volta do lago, o ecossistema inclui pântanos, terras aráveis, planícies que durante uma parte do ano se cobrem de plantações de arroz. Consoante a época, o cenário varia significativamente. A monção carrega os afluentes de água que fazem crescer o tamanho do lago. Mas há outro fenómeno hidrológico a pesar no aumento da área do Tonlé Sap para cerca de cinco vezes mais. Como o Mekong não consegue escoar, na zona do delta, o caudal inchado pela monção, ocorre um fenómeno de inversão da corrente no rio Tonlé Sap, um afluente homónimo que o liga ao lago. As águas excedentárias acabam por retornar, obrigando o Tonlé Sap  a correr às avessas e a contribuir para a ampliação exponencial do lago que sobrevém durante a monção. Desse rio, e das torrentes que avolumam o Mekong, já Camões nos dava conta no Canto X de Os Lusíadas, ao referir-se ao grande curso de água que atravessa a região: “Vês, passa por Camboja Mecom rio, / Que capitão das águas se interpreta; / Tantas recebe d’outro só no Estio, / Que alaga os campos largos e inquieta…”.
Tudo isto, versos à parte, se pode ler no tal pdf da UNESCO, razoavelmente minucioso e graficamente brilhante. Os números não são, todavia, eloquentes para (mais do que entender) sentir a imensidão oceânica deste pedaço do Camboja e a fragilidade da vida de quem come diariamente o pão que o diabo amassou mas porfia em ser fiel a esta singular pátria aquática.
Anoitece quando nos aproximamos de Battambang, após umas extenuantes dez horas de navegação. O cenário, mal iluminado pelo lusco-fusco, mostra as margens do rio Sangkae cobertas de palmeiras, enquanto uma neblina rasa desliza sobre o rio, onde a petizada anda chapinhando com grande alarido. Noutros rios, como no curso do Mekong através do Laos e do leste do Camboja, é a mesma coisa: o fim da tarde, hora de mais brando calor, é um tempo de reinação para a miudagem.
Ao desembarcar descobri que a lancha em que viajou Sanae chegou mais cedo – não foram tantos os percalços com as redes dos pescadores. Ela espera-me no cais de Battambang e é já noite cerrada quando nos despedimos de Wang. Um tuk-tuk deixa-nos à porta da Shangai Guesthouse e fica combinado que, no dia seguinte de manhã, Prak, o condutor, nos levará até ao templo de Banan, nos arredores da cidade. Mas só após um pequeno-almoço cambojano a tomar no velho mercado de traço arquitectónico colonial. Não podia imaginar, naturalmente, mas seria aí que travaria conhecimento com Achariya, uma cambojana descendente dos portugueses que se instalaram no país no final do século XVI e que acabaram por se tornar conselheiros e ministros do rei – e, mesmo, por fazer parte da família real.
Angkor e a costela de Banan
Ir a Roma e não ver o Papa. A expressão define o que seria uma viagem ao Oriente – ao Sudeste Asiático, particularmente – e não conhecer Angkor, símbolo do esplendor da civilização khmer e das vicissitudes históricas da região.
A antiga capital do reino khmer não foi apenas um importante centro político e religioso, foi também um produto de uma fusão cultural e arquitectónica que integrou referências hindus (a Índia legou expressivas matrizes culturais e religiosas a toda a região) e budistas, tendo a sua arte exercido profunda influência sobre manifestações artísticas em quase todo o Sudeste Asiático.
O fascínio que exerceu sobre viajantes de outros tempos pode bem ser aferido pelos termos da descrição que o cronista Diogo do Couto redigiu, a partir das notas de António da Madalena, o frade capuchinho português que terá sido o primeiro ocidental a ver Angkor, por volta do final do século XVI. O historiador português fala de uma “formosíssima cidade” e de um templo “estranho”, a que nenhum outro se poderia comparar em todo o mundo e que nenhuma pena seria capaz de descrever. Por ironia, o texto – a Relação de Angkor – não seria incluído na publicação da sua obra em Portugal. Outros missionários portugueses visitaram nessa altura Angkor e o Camboja, mas o trabalho de evangelização não foi fácil numa terra de sólidas convicções religiosas. Sobre isso desabafaria Gaspar da Cruz (que passou pelo Camboja a caminho das terras do Império do Meio) no seu Tratado em que se contam muito por extenso as cousas da China: “Como quer pois que os brâmanes sejam a mais rija gente de converter, por ser mui pegada a seus ritos e idolatrias sendo el Rei brâmane e seus estimados e mais privados brâmanes, é este um mui grande impedimento naquela terra para se poder fazer cristandade”.
O templo de Angkor Wat é apenas um dos que se conservam no vasto conjunto que reúne uma infinidade de edificações de carácter religioso – como os templos Bayon (conhecido pelas seus colossais rostos de pedra) e Preah Khan (o das raízes devorando os edifícios) – e civil (estruturas hidráulicas e extensos caminhos nos meandros da selva). Alguns destes templos foram objecto de restauro (não sem alguma polémica) pelo Archaelogical Survey of India nas últimas três décadas e a recomposição do Ta Prohm ainda prossegue, colocando sérios problemas técnicos em virtude do grau de desagregação e da acção das tentaculares raízes tropicais.
Um aspecto muito curioso deste enorme parque arqueológico é o facto de ser habitado – e por famílias cujos antepassados ali viveram há séculos, gente que se mantém, tal como eles, ocupada com o cultivo de campos de arroz. Para os visitantes mais atentos a outros signos que não, apenas, os dos tão assediados templos de Angkor, a observação das rotinas rurais dos seus habitantes pode ser um inestimável complemento da jornada, ao longo dos trajectos de bicicleta entre os templos. Pedalar pode ser, realmente, um dos meios mais estimulantes para aceder aos principais locais dentro do parque arqueológico, que chegam a distar quilómetros entre si.
Sobre as influências e o contexto arquitectónico de Angkor Wat – cuja construção se iniciou na primeira metade do século XII –, formou-se a convicção, a certa altura, de que o templo de Banan pode ter sido o modelo que os arquitectos khmers privilegiaram. Banan fica a cerca de vinte quilómetros de Battambang, seguindo uma pitoresca estrada que atravessa várias aldeias e arrozais e flui ao longo do rio Sangkae. Para se chegar ao templo há que subir uma longa e íngreme escadaria, que vence um declive de quatrocentos metros. O templo de Banan, actualmente um santuário budista, sugere a arquitectura do Angkor Wat, embora os cinco prasats (torres) não sejam tão elevados nem a arte de figuração em baixo-relevo revele a sofisticação do segundo: lembrar-se-á o viajante, com secreto júbilo, da apurada sensualidade das apsaras representadas na pedra dos templos de Angkor Wat e Bayon. Para observar algo de arte figurativa semelhante, o Museu de Battambang conserva fragmentos ornamentais em baixo-relevo, assim como alguns dos lintéis do Banan.
A hipótese avançada em tempos sobre o parentesco com Angkor Wat ficou por provar, baralhada pela cronologia de edificação que não deixou comprovada a anterioridade de Banan. Se essa condição vier algum dia a ser reconhecida, então, sim, poder-se-á arriscar a afirmação de que daqui viajou uma das costelas de Angkor Wat.
Battambang, turismo e voluntariado
No caminho que vai de Battambang a Banan, uma surpresa aguarda o viajante: vinhedos, os únicos do Camboja. Tintos, brancos e, até, um brandy, podem ali ser degustados. Battambang, cidade de província afamada pelo seu breve casario colonial (alguns belos edifícios Art Déco, como os do mercado e da velha estação ferroviária), não tem Angkor à mão, como Siem Reap, mas além do milenar Banan conta com muitos e variados motivos a justificar a estância. E mesmo no capítulo dos templos angkorianos, Banan não é o único na região: o semi-arruinado Wat Ek Phnom, encafuado no meio da selva, não faria má figura numa dessas fitas sazonais de Hollywood animadas por piruetas de arqueólogos aventureiros.
Para os dias todos haverá um qualquer programa ajustado a diferentes preferências e sensibilidades; o agora turístico, mas ainda útil à população, comboio de bambu (uma simplificação artesanal do extinto serviço ferroviário cambojano), o pequeno museu com relíquias arqueológicas retiradas dos vários templos à volta da cidade, os itinerários ao longo do rio, as aldeias e o mundo rural dos arrozais nos arredores, o mercado central e as suas bancas de comida popular, a colina de Phnom Sampeau e uma mão-cheia de belos templos e de estátuas dispersas pelas furnas e pelo arvoredo. E ainda, as killing caves, grutas que foram palco das atrocidades dos khmers vermelhos. É um cenário impressivo, com um Buda sereno repousando ao lado de ossadas e dos crânios.
Se o viajante desejar atenuar ou compensar a “pegada cultural” deixada pelo turismo, há pelo menos duas formas. A primeira é fazer-se espectador do Circo de Battambang, na Phare Ponleu Selpak Circus’s School, cuja receita reverte em parte para uma ONG local (informação disponível emwww.phareps.org); a outra será visitar uma das escolas precárias das aldeias dos arredores e ajustar com os responsáveis formas de apoio, que podem passar, também, pelo agora tão trendy voluntariado, que em Battambang parece ser quase tão comum como o turismo. Uma sugestão: a Slarkarm English School, uma escola situada numa aldeia (Slarkarm) situada a sete quilómetros de Battanbang (tel. :855-12815968, mais informação emwww.slarkramenglishschool.com).

GUIAT PRÁTICO
Como ir
Não há voos directos entre Portugal e o Camboja, pelo que é necessário fazer escala numa cidade europeia. A partir de Paris, por exemplo, há ligações directas frequentes para Phnom Penh, a capital. O aeroporto internacional de Siem Reap recebe também voos internacionais, nomeadamente de capitais estrangeiras na região (Kuala Lumpur e Banguecoque).
Quando ir
O melhor período do ano para viajar para o Camboja é o da estação seca, entre Novembro e Maio. Viajar durante a monção tem os seus inconvenientes (embora por vezes a chuva não dure mais do que duas ou três horas), designadamente a dificuldade de acesso a zonas mais remotas sem estradas asfaltadas, mas a época também pode ter algumas vantagens para a navegação no Tonlé Sap.
Onde ficar
Em Siem Reap
Angkor Spirit Palace: três estrelas, confortável e com carácter, um pouco afastado do centro, mas com a vantagem da tranquilidade, entre jardins e espaços verdes.
www.angkorspiritpalace.com
Oral D’Angkor Guest House: um endereço acolhedor, a dez minutos a pé do centro.
Tepvong Street, Siem Reap
Tel.: 855 (63) 967 345)
Em Battambang
Bambu Hotel: excelente relação qualidade-preço, com espaços exteriores muito agradáveis e um toque khmer na arquitectura e na decoração.
Phum Romchek, 5, Sangkat Rottanak
www.bambuhotel.com
Shang Hai Guesthouse: excelente opção para backpackers, central e com quartos duplos e individuais.
Prekmohatep Village, Sangkat Svaypor
Tel.: 855 (97) 6789070
Informações úteis
Os cidadãos portugueses podem obter visto à chegada ao Camboja, tanto no aeroporto internacional de Phnom Penh como no de Siem Reap. A moeda local é o riel (uma corruptela do antigo real português) e o dólar norte-americano circula também no país. Nas ATM os cartões bancários estrangeiros apenas permitem fazer levantamentos em dólares.
Fonte: Fugas

quinta-feira, 31 de março de 2016

As 5 coisas de que eu mais gosto em Macau


Cristiana Figueiredo está em Macau há cerca de 15 anos, onde é empresária, gerindo vários espaços comerciais.
1.
Ver português em todas as ruas

Aqui tão longe, nesta terra que sempre me pareceu quase imaginária antes de ser casa, o encanto de dobrar uma esquina e ver a nossa língua não desaparece com o tempo. Das placas de azulejo com o nome das ruas às traduções surreais das frontarias dos pequenos negócios que não se lêem sem um sorriso, o português imiscui-se sorrateiramente na vivência quotidiana da cidade.
2.
iam chá
Uma mesa de iam chá, uma especialidade do Sul da China que se come tradicionalmente durante a manhã e almoço, é um festival de cor, formas e sabores. Composto por uma multitude de pratos com pequenas iguarias, cozidas no vapor ou fritas, salgadas e também doces, o iam chá é uma refeição social e de partilha.
3.
A mudança e o ritmo

Em Macau a mudança é dramática. Sai-se e quando se regressa há um edifício novo a colorir o perfil da cidade. Fecha o sapateiro onde se ia há anos para nunca mais se encontrar. Macau é frenética de dia, transborda de luz de noite, a agitação é permanente.
4.
A velha Macau
Em recantos que parecem portais para o passado, sente-se ainda a Macau de antigamente, plácida e pacata, reflectida em encantadores edifícios coloniais, em igrejas amarelas rendilhadas a branco, em templos onde o incenso fragrante queima lentamente e raios de sol cortam o fumo que dança.
5.
A multiculturalidade

Num território com cerca de 30km2 e um dos mais densamente povoados do mundo, misturam-se as nacionalidades e culturas. Os amigos distribuem-se por mais nacionalidades que os dedos das mãos conseguem contar e as crianças são pelo menos trilingues (o mandarim aprende-se na escola). O impenetrável cantonês é um desafio que torna mais interessantes os dias.
Fonte: Fugas

sexta-feira, 25 de março de 2016

Viajantes: confiar é preciso, até certo ponto


O que é essencial numa viagem? A confiança: em nós, sempre, e nos outros, com cautelas, dizem os viajantes com quem a Fugas conversou.
Cristina Fernández: Passeio pelo mundo
Brinca dizendo que nasceu a viajar, Cristina Fernández, sevilhana nascida em Londres. Viajou sempre e encontrou o seu trabalho de sonho quando se tornou jornalista do programa televisivo Andaluces por el mundo, o pioneiro destafranchise em Espanha. Quando este terminou, continuou a trabalhar em televisão e a viajar sempre que o trabalho permite (e a escrever no seu blogue de viagens). Com o namorado, em grupo, cada vez mais sozinha, sobretudo nas viagens mais longas. “Tenho o meu ritmo, posso fazer o que quero a cada momento, sem depender de ninguém. E falo muito mais com os locais.” Mesmo que não falem a mesma língua, como aconteceu numa viagem de camioneta na Tailândia, onde passou oito horas a “conversar” com a senhora ao seu lado. “Ela até partilhou a comida que trazia”, recorda. Em Marraquexe, o facto de ir cumprimentando quem passava, salamu aleikum, não só a livrou de muito assédio como lhe valeu convites para pequenos-almoços, chás. Não evitou, porém, que em Marraquexe, tenha sido perseguida por um homem “con muy mala pinta”. “Esteve meia manhã atrás de mim e só me dizia coisas em árabe, que eu não entendia. Acabei por entrar num museu e vi que ficou à porta. Falei com os funcionários do museu que saíram e lhe disseram algo. Quando saí já não estava.”
Com 33 anos, Cristina não tem dúvidas: viajar é o que mais gosta de fazer. E às vezes confia demasiado nela própria, o que a deixou — e ao namorado e a outro casal — em situação perigosa numa viagem pelo Botswana e Namíbia, quando decidiram fazer um safari livre. Num dos parques nacionais do Botswana, onde se pode ficar o tempo que quiser, um dos mapas que levavam não assinalava um rio, por onde passaram ao anoitecer, hora de banho dos elefantes. Encontraram várias manadas e um deles, com crias, decidiu protegê-las. Aproximou-se do jipe e ficou a cerca de 10 metros — eles lá dentro durante 30 minutos, imóveis, à espera que ele se lançasse contra a viatura. Acabou por afastar-se e eles seguiram. “Tínhamos lido guias, vimos como se deveria reagir perante animais selvagens, mas nada nos preparou para aquilo. Fomos muito inconscientes”, assume. À distância, contudo, diz que viveu uma “verdadeira aventura”. Nessa mesma viagem, desta vez em Windhoek (capital da Namíbia), outra aventura, menos selvagem. Foi levantar dinheiro a um multibanco, sozinha, e foi abordada por um rapaz que a queria ajudar, dizendo como colocar o cartão, “de outra forma não funcionaria”. “Eu estava a confiar, mas depois reparei que três mulheres haviam parado a observar e faziam não com a cabeça.”
Ou seja, há que “confiar até certo ponto”, conclui, e é o que faz nas suas viagens, que são como um “passeio pelo mundo”. Em Chiapas (México), pleno território zapatista, estava a chegar a San Cristóbal de las Casas, por uma estrada péssima e noite cerrada. Passaram três carros no sentido contrário e todos fizeram sinais de luzes, ela sem saber porquê. Até que vê um homem deitado no meio da estrada. “Tive que travar a fundo”, recorda, “e ficámos [ia com o namorado] sem saber: será que se passou algo ou é uma armadilha?” Tomada pelo nervosismo, começou a chorar, mas decidiram seguir a viagem. Mais tarde veio a saber que aquele cenário era comum — “apenas” homens bêbados. A mesma decisão tomaram em Ilhéus (Salvador da Bahia), quando passaram de carro por dois homens atacando-se na beira da estrada com “umas espécies de foices”. “Não sabia como iam acabar, mas não podíamos arriscar”.
Quando prepara uma viagem, Cristina informa-se muito, vê o que pode fazer, visitar, coisas diferentes, não só o típico. Marca apenas a primeira noite de hotel: “Tenho ideia do que vou fazer, mas nada marcado.” Gosta de perguntar aos locais e às vezes segue os conselhos. Já teve boas e má surpresas. No México, a experiência foi frustrante, na Birmânia, por exemplo, “todo un acierto”. E um risco, porque não só seguiram indicações como foram de mota com os homens que se ofereceram para ser os seus condutores durante a sua estadia. “No início pensámos que nos queriam enganar, acabámos por aceitar quando nos prometeram levar a sítios fora das rotas turísticas”, conta. Estavam num país desconhecido, com uma língua desconhecida e homens desconhecidos. “Descobrimos templos abandonados impressionantes, onde não havia um turista. Percorremos caminhos rurais e parámos em aldeias completamente isoladas. Foi uma experiência inolvidável”, recorda, “tanto que todos os dias em que estivemos em Mandalay contámos com eles”. Ainda na Birmânia percebeu como as pessoas se alegram por estrangeiros se interessarem pelo seu país. “Fui comprar uma garrafa de água. Conversa puxa conversa, deram-me fruta, uma pulseira e convidaram-me para jantar.”
Custa-lhe lembrar-se de más experiências — “acho que tenho tendência a esquecer” — mas recorda-se de no Uruguai ter de pagar 60 euros à polícia para não serem multados. “Ficámos horas paradas numa estrada, eles a dizerem que chamariam um juiz. Mas nunca mais chegava ninguém. Acabámos por pagar.” E em Ho Chi Minh (Vietname) foi ao contrário: perante a ameaça de chamar a polícia, um taxista que tentou cobrar-lhes mais do dobro do que sabiam, por experiência, ser o valor da viagem, acabou por desistir. Recentemente, na Tailândia, tinha marcado uma viagem de barco para umas ilhas mais pequenas a partir de Ko Chang. Quando a hora chegou, estava muito mau tempo. “Pensei que o barco não saía.” Saiu e pouco tempo depois estava tudo a vomitar. Ela via os olhares da tripulação e sabia que a situação não era boa. Chegou a olhar em volta a ver se via uma ilha mais próxima para atirar-se à água. “Lo pasé fatal, muy mal”, confessa. Chegou ao destino final e soube que todas as travessias tinham sido canceladas — a dela “furou” o cancelamento. “Já via os cabeçalhos dos jornais: ‘50 chineses e duas espanholas mortas num naufrágio na Tailândia’”, brinca agora.
E agora também confia, sem dúvida, mais nos outros. “Ouvimos desde pequenos que temos de estar alerta, não confiar, não falar com estranhos. Mas vamos aprendendo que há mais pessoas boas que más. Com sorte cruzas-te com as boas.”

Mariana Oliveira e André Gomes: “Confiar: nos outros e em nós”
Às vezes a simpatia tem segundas intenções. Mariana Oliveira e André Gomes preferiram jogar pelo seguro e não esperaram para ver. Aconteceu em Hoi An, no Vietname, quando pararam as bicicletas para consultar o mapa. Queriam chegar à praia. Pára uma mota e uma rapariga vem ter com eles — o condutor segue e estaciona mais à frente. Acenderam-se os sinais de alerta: “Algo se passa!” A rapariga tenta ajudá-los. Sigam pela direita, indicou. “Agradecemos e fomos pela esquerda”, contam Mariana e André por email, a partir da Nova Zelândia, onde estavam desde Dezembro (agora já estão na Austrália). “E não é que tínhamos razão?” Contudo, o encontro não ficou por aí. Duas horas de pedaladas depois, eis que avistam agora apenas o rapaz na mota e mais à frente outro rapaz, também de mota. Ambos falavam ao telemóvel. “Olhámos um para o outro, invertemos a marcha e voltámos para ohostel.”
A professora de Filosofia de 36 anos e o representante de vendas de 35 estão a meio da grande aventura a que se propuseram (Indonésia, Tailândia, Laos, Vietname e Camboja já ficaram para trás). “Decidimos que seria bom para a nossa sanidade mental fazer uma pausa de um ano”, explicam. Queriam conhecer novas culturas, aprender com realidades diferentes e mudar a tónica dos bens materiais para os bens humanos. E uma coisa já sabiam: tinham de respeitar os locais. “Nós é que estamos ali a mais, aquele espaço é deles. Nós é que somos os diferentes. Também seguimos a máxima popular ‘Em terra onde fores, faz como vires fazer’.” Isso ajudou-os numa viagem num comboio nocturno, também no Vietname. Ao chegarem aos seus lugares, encontraram um compartimento com cerca de dois metros quadrados e seis camas. Estavam já lá cinco pessoas: um homem trazia o filho, de seis anos, que estava numa das camas destinadas ao casal. As contas foram rápidas: “Seis camas, cinco vietnamitas, dois portugueses. Alguém estava a mais”. Decidiram que eram eles e então instalaram-se no corredor (apertadíssimo), sem janelas que abrissem e com baratas (bastantes) a passear, para uma viagem de 12 horas. Uma vez aí, uma das revisoras, primeiro desconfiada e com cara de poucos amigos, percebeu que os “estranhos” tinham cedido a cama a uma criança — duas horas depois tinham dois lugares sentados, limpos e com janela que abria.
Quando começaram a preparação da viagem, Mariana e André tiveram muitas dúvidas e uma certeza absoluta: iam à Nova Zelândia e iam aproveitar o visto de três meses. Antecipavam o que encontraram, uma “lufada de ar fresco, quer pelas paisagens, autênticas obras de arte, quer pela cultura que se vive”. “É incrível a forma como as pessoas respeitam a natureza e os animais”, contam. E aprenderam “que é possível confiar”, num país em que as pessoas têm a prática de deixarem as casas e os animais de estimação ao cuidado de desconhecidos. Mariana e André têm sido esses desconhecidos, através da rede de house-sitting. Na primeira vez, várias dúvidas pairavam sobre eles: será que as informações (condições e localização das casas, por exemplo) da plataforma online onde estão inscritos estavam correctas? A verdade é que a realidade superou as expectativas e na Austrália também são house-sitters.
No entanto, a Nova Zelândia não foi livre de sustos. Excessos de confiança: após uma caminhada de uma hora, chegados a uma “bela praia”, cheia de turistas, não hesitaram em dar um mergulho. A roupa e a máquina ficaram em cima de uma rocha e de repente viram duas raparigas aproximarem-se para tirar fotografias. “Numa paisagem tão bonita não se escolhe uma rocha cheia de tralhas, a não ser que haja lá algo de interessante”, pensaram, por isso, voltaram à rocha.
Alguma confiança, com bom resultado, sentiram no voo entre Banguecoque e Bali. Emprestaram 50 dólares ao casal chinês que seguia ao lado deles e que havia pedido comida: no avião só aceitavam bahts ou dólares e eles só levavam rupias indonésias. “Ficaram maravilhados! Quando o avião aterrou, ajudaram-nos na burocracia para a entrada no país, devolveram-nos o dinheiro e deixaram-nos os contactos para irmos jantar a casa deles em Banguecoque ou Taiwan.”
Poucos meses na estrada já lhes permitiram perceber alguns truques com que se tenta enganar incautos, como quando apanharam um táxi, noite instalada, em Nha Trang. O taxista pega na nota que lhe deram, coloca-a na carteira e retira outra, furada, dizendo que é falsa. “Dissemos que íamos chamar a polícia e de repente a nota deixou de ser falsa e recebemos o nosso troco.” Também por isso esta viagem tem contribuído, “e muito”, para a auto-confiança deles. “Deixámos de recear o desconhecido. Sabemos que ainda falta um longo caminho, mas temos confiado em nós e nos outros e a resposta tem sido francamente positiva. Portanto, vamos continuar com a nossa táctica: confiar, nos outros e em nós.”

André Parente: A importância do instinto
“A primeira vez que cheguei à Indonésia tive um impulso para ir embora logo no dia seguinte. Muita confusão, idioma muito diferente, pessoas aparentemente a tentar enganar-me, trânsito caótico, motas por cima dos passeios, ruas sujas com oferendas... Respirei fundo, mudei-me para um hotel melhor e fiquei alguns dias só a observar, sem fazer praticamente nada além de dormir, comer e observar. Depois habituei-me e hoje em dia a Indonésia é dos meus destinos preferidos.” André Parente, 42 anos, não esquece o choque cultural na Ásia, que durante os próximos meses é a sua casa. Quando falámos com ele estava na Tailândia, onde ia ficar um mês — hoje parte para o Camboja. Ou amanhã ou depois de amanhã. Tem medo de andar de avião e por isso sempre que pode utiliza transportes terrestres, não está tão preso a datas. “Sei que é irracional [o medo] porque também sei que é seguríssimo [o avião]. É mais perigoso o que fiz há pouco, ir à praia de mota, descalço e sem capacete. Ou andar de autocarro na Índia ou no Peru.” Por isso, André também não deixa nada ao acaso: anda com umas chapas, “tipo dos soldados norte-americanos”, ou uma pulseira com placa, com os seus dados — identificação, número de passaporte, apólice de seguro, número de emergência, tipo de sangue — e no bolso leva o cartão de uma clínica internacional local. “Se me acontecer algo, quem me encontrar saberá o que fazer. A maioria das pessoas pensará que sou alarmista, mas as histórias aqui...”
Estes são truques que André foi aprendendo com as viagens — e não são os únicos — que partilha num grupo do Facebook (Viajantes Independentes), onde procura dar informação e confiança a viajantes independentes. Aprendeu, por exemplo, que não há problema em chegar a um sítio às 3h da manhã — “pedes um táxi para o melhor hotel da cidade, o preço vai ser demasiado caro, mas se pedires para ficar no lobby até amanhecer não recusam” — e que quando se sai de um autocarro e comboio o melhor é ficar para trás enquanto os taxistas vêm em busca de passageiros — “esses são os que podem tentar enganar-te”. Mas isto só com a experiência se aprende e ele já foi muitas vezes enganado em táxis.
Afinal, são muitas as viagens que os seus passaportes testemunharam. Sozinho, viajou pela primeira vez para a Austrália e Nova Zelândia, em 2007 empreendeu a grande aventura, um ano pelo mundo. Nos últimos anos tem dividido o seu tempo entre um ano em casa e meio ano a viajar — conseguiu conciliar o trabalho com as viagens, já que o faz online (marketing ewebdesign). Se há algo em que tem de ter absoluta confiança é nas ligações à Internet: consulta fóruns online para avaliar e de cada vez que chega a um alojamento verifica tudo antes de instalar-se. Agora no Camboja, vai para uma ilha e não tem a certeza de como será a Internet, mas está preparado: “Posso ficar uns dias sem trabalhar, mas tem de ser por determinação minha.”
Não é apologista do “vamos embora e logo se vê”. “É demasiado arriscado”, considera, “e eu gosto de planear”. “Sempre fui uma pessoa bastante confiante. Penso muito sobre os assuntos, pondero, crio planos b e backupsde emergência para tudo. Mas na hora de decidir e implementar, não penso muito nisso... Confio no instinto e faço!” Porque, por mais planeamento que faça, já lhe passou de tudo, já foi assaltado, já perdeu aviões e comboios, já ficou sem hotel.
Nas vezes em que não confiou no instinto, nem sempre as coisas lhe correram bem. Como há dois anos, numa guest house na Nicarágua. O preço era óptimo, mas sentiu algo estranho, que depois associou a uma troca de olhares da recepcionista. “Decidi ficar e fui assaltado. Não são coisas esotéricas mas deveria ter ouvido [o instinto].” Por outro lado, quando recebeu o convite para ficar numa casa na Nova Zelândia também ficou alerta, porém decidiu aceitar. “Tive uma experiência rara, de passar uns dias com uma tribo maori.”
Com tanto planeamento, o ponto fraco de André é quando viaja acompanhado. Baixa um pouco a guarda e isso já o colocou em situações complicadas. Na Costa Rica assaltaram-lhe o carro. “Fui desleixado, deixei as coisas lá”, confessa. Roubaram-lhe tudo. Sem dinheiro, a 500 quilómetros da capital, foi ajudado: num hotel deixaram-no dormir — “se tiver dinheiro depois paga, se não, não” —, um casal alemão, aí no hotel, ofereceu dinheiro — ele recusou, mas ainda assim surgiu-lhe um envelope debaixo da porta. Conseguiu chegar a São José e dois dias depois já tinha dinheiro, passaporte e continuou viagem. “Na altura foi dramático, hoje penso ‘ainda bem que aconteceu’. Percebi que nada é tão grave assim”, relativiza.
Apesar de tudo, assume-se como desconfiado em relação aos outros e acredita que em viagem é bom que olhem para ele e não tenham vontade de o roubar. “Quero parecer o mais pelintra”, brinca. Do que não abdica é da confiança em si. “Depois de tantas situações, sei que tudo se resolve e nada é tão problemático como pode parecer. Para além de situações de saúde ou acidente, tudo se resolve com relativa facilidade... e alguns dólares! Hoje em dia não tenho receio de ser ‘largado’ em qualquer sítio porque sei que se há lá gente é porque há transporte, sítio para dormir e comida.”
Anabela Valente e Jorge Valente: “Vamos com as pessoas”
A história começa no Luxemburgo, lugar central da diáspora portuguesa e local onde Anabela Valente e Jorge Valente se conheceram: ela chegada para trabalhar nas instituições europeias, ele nascido no grão-ducado. Tornaram-se companheiros de vida e das viagens que começaram a fazer de mota. Primeiro na Europa, até que há dois anos pediram uma licença sabática e partiram para seis meses na América do Sul, sempre de mota. “E com muita calma, para conhecer pessoas e passear”, explica Anabela, via Skype (na altura, Jorge estava na Ucrânia, em missão com a Cruz Vermelha). Foram “minimamente” preparados e com receio q.b.. “Problemas há sempre, sobretudo se viajas de mota. Cair, por exemplo: não há um ‘se’ caíres, há ‘quando’ e ‘quantas’ vezes. E isso dá azo a muitas aventuras.” Essas aventuras mudaram-lhes a vida: agora têm uma revista semestral (Diaries of: cada número, um país) e deixaram os empregos para viajar.
Curiosamente, a maior aventura que viveram nesse périplo sul-americano não teve relação com a mota — mas a ela iremos. Já no final da viagem, Anabela e Jorge são apanhados quase no epicentro de um terramoto de 8,8 na escala de Richter, seguido de alerta de tsunami. Estavam em Iquique (Chile), numa estalagem em frente ao mar, eram quase 21h, e preparavam-se para dormir. A terra começou a tremer e eles saem para a rua, descalços, quase sem roupas, correndo quilómetros, seguindo os sinais de evacuação em caso de tsunami. A noite foi passada entre famílias chilenas, que lhes providenciaram roupa e comida. No dia seguinte, Anabela percebeu que tinha os pés cravejados de vidro e não quis voltar a dormir na estalagem, com medo que uma réplica a obrigasse novamente a correr. Uma família chilena abriu-lhes a sua casa, situada num ponto alto, e eles aceitaram sem hesitar. Em boa hora, porque houve novo sismo, desta vez de 7,7, mas não tiveram de fugir. “É incrível a generosidade das pessoas em situações limite”, reflecte Anabela, “nas horas difíceis em viagem temos sido sempre ajudados.”
E vamos à mota e aos imprevistos. “Nunca podemos marcar hotel, por exemplo, porque não sabemos até onde conseguimos chegar.” Uma vez, num anoitecer na Patagónia, acabaram a montar tenda no jardim de um morador de um local isolado, onde só havia um hotel muito caro e três ou quatro casas. “Pedimos e ele disse logo que sim.” Situação mais complicada foi vivida no Chaco, em território paraguaio. Sabiam que era uma zona muito desertificada e quiseram certificar-se que teriam lugares para abastecer a mota e as condições das estradas. “Diziam sempre que ‘es fea’ [em mau estado], mas que dava para fazer.” Seguiram viagem e a correia da mota partiu. Em menos de uma hora passou uma pick-up. Os dois homens ofereceram-se para levar a mota até à povoação mais próxima. “Eu estava bastante renitente”, assume Anabela. Contudo, eles lá os levaram até um “mecânico amigo”. “Pensei ‘ok, vai sair caro’. Mas não. Acabámos a almoçar com eles e o arranjo ficou-nos por menos de 10 euros.”
De um seguro de mota expirado dois dias antes, Anabela e Jorge encontraram uma das suas anedotas preferidas. Estavam perto da fronteira da Argentina e como nunca tinham sido controlados foram arriscando. Correu mal e Jorge teve de ir até à localidade mais próxima tratar dos papéis. Para lá arranjou boleia facilmente, para voltar teve mais dificuldade e demorou umas horas. Entretanto, Anabela tinha ficado sozinha, já que a brigada policial, tendo acabado o turno, abandonou o local. “Com tudo isto já estava aflita e quando vejo chegar uma carrinha de onde saem dois homens fiquei com medo.” Afinal era o Jorge, que viajou com um caixão.
Certamente que uma das anfitriãs de couchsurfing que os recebeu nesta viagem também terá uma anedota para contar. Era a sua iniciação na rede de acolhimento e eles perceberam que na primeira noite ela não largava o telemóvel. Uns dias depois, a confissão: eram mensagens de família e amigos a certificarem-se de que estava tudo bem, de que Anabela e Jorge não eram “uns psicopatas”.
Já encontraram polícias que os tentaram extorquir, taxistas que os tentaram enganar, mas Anabela e Jorge acreditam que a sua experiência lhes tem ensinado que as pessoas são, por natureza, “boas e generosas”. “Vimos darem tanto a estranhos que quando alguém tenta tirar imaginamos que estão numa situação difícil. Mesmo sabendo que nos estão a cobrar mais do que a um local, se achamos que é um preço correcto, não vale a pena chatearmo-nos.” Cada vez confiam mais em estranhos. E viajam por forma a conhecê-los. “Não levamos GPS, de preferência temos um mapa muito básico, porque assim temos pretexto para falar com as pessoas. Às vezes pedimos direcções e acabamos por não ir aos sítios. Vamos com as pessoas.” Vamos ver onde as pessoas os levam por Cabo Verde, onde andam por estes dias, e nos próximos anos, em que tencionam chegar à Ásia.
Fonte: Fugas